sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Trabalho de Conclusão de Curso


Jesus Histórico: analisando as fontes

RESUMO

O cristianismo é a maior religião do mundo em número de adeptos. Seus ensinamentos baseiam-se na figura de Jesus de Nazaré, um judeu do primeiro século. Por ser uma religião histórica, torna-se importante para seus seguidores que os relatos sobre a vida e obra de seu inspirador sejam historicamente exatos. Este trabalho tem como objetivo analisar as principais fontes históricas sobre a vida de Jesus: os Evangelhos e os documentos não cristãos escritos nos primeiros séculos do cristianismo. Pretendemos demostrar que esses documentos são capazes de fornecer informações históricas relativas ao inspirador do cristianismo.  Ao final deste trabalho, esperamos ter contribuído para uma maior compreensão dos acontecimentos que se desenrolaram em torno deste personagem, fonte de inspiração de 2,2 bilhões de seguidores espalhados pelo globo.
Palavra chave: Jesus Cristo; religião; evangelhos.




ABSTRACT
Christianity is the largest religion in the world in number of adherents. His teachings are based on the figure of Jesus of Nazareth, a Jew of the first century. Because it is a historical religion, it becomes important to his followers that reports on the life and work of his inspiring are historically accurate. This study aims to analyze the main historical sources on the life of Jesus: the Gospels and Christian documents not written in the first centuries of Christianity. We intend to show that these documents are able to provide historical information on the motivational Christianity. At the end of this work, we hope to have contributed to a greater understanding of the events that unfolded around this character, inspiration 2.2 billion followers around the globe.
Keyword: Jesus Christ, religion, gospels.












 


Introdução


Paul Copan, PhD em Filosofia e professor de Filosofia e Ética, na introdução do livro “O Jesus dos Evangelhos: mito ou realidade” (2012, p.11) tece um competente resumo sobre o debate em torno do Jesus histórico.
Retrocedendo até os fundamentos do debate historiográfico sobre Jesus, Copan aponta o trabalho de David Friederich Strauss (1808-1874), renomado teólogo e exegeta alemão, primeiro a fazer separação entre o “Jesus histórico” e o “Jesus da fé”.
Paul Copan explica como Strauss defendia o caráter mítico da visão tradicional sobre Jesus, visão que essa que, apesar de sua importância, não deveria ser encarado como eventos existentes no espaço- tempo.[1]
Copan continua sua exposição, elucidando as ideias de Martin Kahler(1835-1912). Para este teólogo alemão, a discussão sobe o Jesus histórico não apenas era inútil, como também afastava do aspecto mais importante do cristianismo, que era a fé. Para Kahler, seria impossível uma abordagem histórica sobre a vida de Jesus, pois não existiriam fontes capazes de fornecer informações segundo as exigências da ciência histórica (COPAN, 2012, p.13).
Segundo Copan (2012, p.14), Rudolf Bultmann (1884-1976), outro proeminente teólogo alemão, a mensagem central do cristianismo estava soterrada pelo misticismo e pela superstição. Os Evangelhos eram expressões obsoletas de um período pré-cientíco e nada podiam acrescentar ao debate histórico. Debate que, aliás, não era necessário para a fé.
Desta maneira, esses três renomados estudiosos concordavam na insofismável separação entre a crença e a realidade histórica.
Ernst Kasemann (1906-1998) é apontado como o inaugurador de uma nova fase nos estudos históricos sobre Jesus (COPAN, 2012, p.16). Para ele, sem uma base sólida na qual se apoiar dada pela comprovação histórica, o cristianismo perderia todo o seu sentido prático. Defendia, pois, que os evangelhos possuíam sim, um valor histórico, por verificar que seu conteúdo condizia com o que se sabia sobre o primeiro século da Palestina.
Portanto, Kasserman estabelece o que ficou conhecido como New Quest. Segundo Gabrieli Cornelli (2006, p.19), esta nova busca trabalhava com o Jesus da fé e com o Jesus histórico simultaneamente, partindo do pressuposto de que o primeiro seria uma continuação do segundo.
Característica da terceira busca, é aquela que procura despir a pesquisa de todo o conteúdo teológico (CORNELLI, 2006, p.20). Encabeçado por John Dominic Crossan, Bart D. Ehrman e no Brasil, Pedro Paulo Funari e André Leonardo Chevitarese, essa separação entre as crenças e a pesquisa histórica, representa um retorno às conclusões de Strauss, o “Jesus da fé” surgiria muito tempo depois do “Jesus histórico”, sendo o primeiro uma deturpação do segundo: [...]“são duas coisas distintas. Jesus era judeu e nunca falou em fundar igreja ou religião. As igrejas foram fundadas séculos depois de Cristo.” (FUNARI, 2012).
Ao acompanhar o que é publicado sobre o tema nos veículos especializados, não raro ficamos com a impressão de que esta última corrente de estudiosos representa o suprassumo das pesquisas sobre o Jesus Histórico. A mesma impressão se repete, ao acompanharmos o que é publicado nas revistas especializadas e veiculado nos programas de TV.
Poucos são os que conhecem o trabalho de Willian Lane Craig, doutor em Filosofia pela Universidade de Birmingham, Inglaterra e doutor em teologia pela Universidade de Munique, onde se dedicou à pesquisa sobre a historicidade da ressureição de Jesus. É autor de diversos livros[2]e artigos[3] sobre o Jesus Histórico e participou de diversos debates, inclusive com Bart Ehrman e John Dominic Crossan sobre o Jesus Histórico. (COPAN, 2012 p.26).Em seu trabalho, o doutor Craig defende um Jesus Histórico que pouco difere do Jesus da fé e, para acastelar suas conclusões,se apoia nas análises e conclusões de vários estudiosos no novo Testamento como Craig Blomberg e Norman Geisler, reconhecidos internacionalmente por seus trabalhos com este tema.
Trabalhos como os de Craig raramente chegam ao conhecimento do grande público brasileiro[4], embora tenham certa projeção nas universidades no exterior, principalmente nos países que possuem maior tradição na pesquisa sobre o Jesus Histórico, como a Inglaterra.
Neste trabalho, apoiados no trabalho desta última corrente de estudos, analisaremos a principal fonte sobre a vida de Jesus que são os Evangelhos, pois sendo eles a principal fonte de informação sobre Jesus, torna-se importante saber se esses documentos são capazes de fornecer dados precisos o suficiente para lançar uma luz histórica sobre e vida de Jesus de Nazaré.
Também trabalharemos com as chamadas “fontes externas”. 
Como “fontes externas”, queremos nos referir ao conjunto de documentos que não fazem parte dos Evangelhos, escritos por autores da antiguidade, muitos deles sem vínculos com o cristianismo.
O estudo dessas fontes é importante para a análise dos evangelhos, pois serão capazes de reforçar ou diminuir sua credibilidade.
Fontes externas têm o poder de fortalecer ou enfraquecer o valor histórico de um documento estudado. A procura de fontes alternativas faz parte do método de trabalho histórico, como aponta a Professora. Dr.ª. Ana Elizabeth Santos Alves e a Professora. Especialista Lígia Maria Portela da Silva (2004, p.4) “[...]cabe ao pesquisador ter o cuidado de cruzar as informações obtidas com outras fontes documentais que possam transmitir dados acerca do objeto de estudo e escolher uma metodologia adequada para analisá-los”.
Assim, para lançar uma luz histórica sobre os relatos evangélicos, analisaremos os seguintes documentos: o Testemunho Flaviano; a Carta de Plínio, o Jovem; o capítulo XV da obra “Anais”; o Talmude.
Também faremos uso da obra “Jesus de Nazaré: uma outra história”, organizado por André Chevitarese dentre outras obras que serão citadas durante o trabalho.
Ao final, esperamos conseguir demonstrar que a visão ortodoxa de Jesus pode ser defendida por meio dos métodos históricos.

 





















Capitulo 1: Os Evangelhos



Começaremos nossa análise pelos Evangelhos que, segundo Paulo Ramos (2009, p.10): “[...] (gr. evagellon) significa “boas novas” ou “boas notícias”. Usa-se a palavra evangelho para designar qualquer composição sobre a mensagem e obra de uma personagem de nome Jesus”.

Foram poucos os autores que, na Antiguidade, se dedicaram em registrar a história de Jesus. E nem poderia ser de outra forma: a figura de Jesus só se tornou importante com o desenvolvimento da igreja cristã fora dos limites palestinos, especialmente em Roma (KURTS, 2008, p.4).

Os Evangelhos foram escritos tendo como base uma sólida tradição oral sobre a vida de Cristo (SANTOS, 2010, p.9).

Dentre os documentos dedicados à vida de Jesus Cristo, quatro são considerados canônicos (originais), sendo eles os livros de Mateus, Marcos, Lucas e João. Existem também os “apócrifos”, considerados não canônicos, que segundo Paulo Ramos, são:

Evangelho de Tomé (50-140 EC) – uma colecção de dizeres que Jesus inicia com a sugestiva proposta “quem souber interpretar estes dizeres jamais provará a morte”; grande parte dos versículos começam com “Jesus disse...”; muitos dos dizeres encontram-se nos evangelhos do Novo Testamento; Evangelho Segundo Maria Madalena (120-180 EC) – neste evangelho, Maria Madalena é a favorita entre os discípulos de Jesus; - Evangelho de Filipe (180-250 EC) – numa passagem descreve que Jesus beijava frequentemente Maria Madalena;Evangelho de Judas (130-170 EC) – a sua recente recuperação a partir de milhares de fragmentos mostra uma doutrina em que Judas é retratado de uma forma favorável. - Evangelho da Infância Segundo Tomé (140-170 EC) – descreve as traquinices de Jesus na sua infância durante a qual utilizava os seus poderes com irresponsabilidade. (RAMOS, 2009, 10 e 11).

Muitos dos apócrifos são profundamente influenciados pelo gnosticismo[5] e, estando em desacordo com os escritos mais antigos sobre Jesus, foram rejeitados ainda nos primórdios da Igreja Cristã. (GEISLER, 1997,p.114)

Diferentemente do que informa Paulo Ramos em seu trabalho (RAMOS, 2006, p.11) não foi a Igreja Católica que autorizou a entrada dos evangelhos canônicos ao Novo Testamento. De fato, eles já eram utilizados pela Igreja Cristã Primitiva[6], já no século I (GEISLER, 1997, p.158). Portanto, o que a Igreja Católica fez, na verdade, foi apenas ratificar o que já era prática na Igreja Cristã, desde o primeiro século.

Um entrave na aceitação dos evangelhos como fonte histórica confiável sobre a vida de Jesus, no meio cético, é o fato de se poder encontrar neles, relatos de acontecimentos sobrenaturais.  Ernest Renan (2003, p.21) comenta: rejeitamos o sobrenatural pela mesma razão que rejeitamos a existência de centauros e hipogrifos: é que nunca o vimos”. Contudo, somos da opinião de que a história rejeita o sobrenatural, simplesmente por não ser este o objeto de seu estudo, estando por isso incapacitada tanto para afirma-la, quanto para negá-la[7].

Estando, pois, os milagres de Jesus longe do alcance dos métodos históricos, não podem constituir empecilho para o estudo de outros elementos relacionados à vida de Cristo.

Paulo Ramos ainda aborda a questão dos evangelhos sinóticos[8]:




Por outro lado, encontramos nos textos de Mateus, Marcos e Lucas frases muito semelhantes interpoladas com material realmente original (que só encontramos num dos textos). Isso significa que vários autores basearam o seu relato no de outrem, apenas acrescentando, subtraindo ou modificando detalhes. Ou seja, os vários relatos não seriam independentes, mas sim baseados num único original. (RAMOS, 2006, p.13)


Este “único original” referido pelo autor seria o documento “Q”, uma hipotética coleção de citações das palavras de Jesus que teria sido a fonte usada pelo autor do primeiro evangelho para compor seu livro. Luigi Schiavo, (2006, p.194) informa que ao documento “Q”, atribui-se a data de composição entre 40 a 55 D.C.

Sendo uma coleção de citações usada pelo primeiro autor evangelista, é fácil supor que os demais conteúdos dos evangelhos sinóticos que não fazem parte do Q, assumem um caráter independente de autor para autor (SANTOS, 2010, p.16).

 Outra objeção comum quando se fala nos Evangelhos como fontes históricas é o argumento de que ele sofreu, durante séculos, várias modificações em seu conteúdo devido a vários motivos e vários interesses:

Não tínhamos os escritos originais do Novo Testamento. Tínhamos cópias desses escritos, feitos anos mais tarde – em muitos casos, muitos e muitos anos mais tarde. Além do mais, nenhuma das cópias era completamente exata, visto que os copistas que as produziram introduziram mudanças em algumas passagens, inadvertida e/ou intencionalmente. (EHRMAN, 2008, p.15)

Bart Ehrman é considerado um dos maiores especialistas em Novo Testamento na atualidade. Contudo, outros renomados estudiosos chegaram a conclusões divergentes dele.

É o caso de Norman Geisler, ThM em teologia e PhD em filosofia, para quem os Evangelhos chegaram até nós com apenas 1% de modificação em seus textos originais, sendo que nenhuma das variações detectadas oferecem alguma dificuldade para os principais ensinamentos do cristianismo (GEISLER, 1997,p.189), conclusão que sobrevém depois da análise e de comparação dos inúmeros manuscritos latinos e gregos que sobreviveram aos séculos.

Ainda segundo os estudos[9] de Geisler (1997, p.183-184), o Novo Testamento é o documento antigo que possui o maior número de cópias manuscritas, seguida logo depois pela Ilíada. Em 15.000 linhas da Ilíada, 764 são passíveis de dúvidas, contra as 40 linhas do evangelho que possui 20.000 linhas ao todo. Assim, os evangelhos sofreram 1% de corrupção contra 5% da Ilíada. O poema épico nacional da Índia, o Mahãbhârata com suas 250.000 linhas, possui cerca de 26.000 linhas de corrupção textual, portanto, pouco mais de 10%.
Assim, quando comparado com outros documentos antigos, o Novo Testamento é o que possui o maior número de manuscritos e a menor diferença textual entre eles, o que o faz alcançar a marca de 99% de pureza em seu conteúdo original.  Nem mesmo o Alcorão[10] que pertence ao século VII DC, sendo, portanto, um livro mais recente, apresenta um nível de pureza tão elevado.
Reunindo todos os elementos apresentados referentes aos evangelhos, podemos concluir que: são baseados em uma sólida tradição oral sobre Jesus; são melhores fontes de informação do que os evangelhos apócrifos, por serem mais antigos e também porque os apócrifos sofreram influência do gnosticismo do século II; é o documento antigo que sobreviveu em maior número de manuscritos e que apresenta o maior grau de pureza, o que significa que seu texto chegou até nós, 99% igual à forma em que foi originalmente composto.
Contudo, sabemos que somente esses dados não são suficientes para considerar os Evangelhos historicamente precisos. É necessário que existam outras fontes, de preferência sem vínculos com o cristianismo, para que possamos comparar e a partir desta comparação, tentar chegar a uma conclusão, o que pretendemos fazer nos próximos capítulos.

O testemunho Flaviano


Historiador que viveu no primeiro século depois de Cristo, Flavio Josefo era um judeu que recebera cidadania romana. Tem entre suas obras mais importantes, o livro Antiguidades Judaicas, escrito por volta do ano 94 D.C. Nesta obra, Josefo discorre sobre a história do mundo através da ótica judaica e é também nesta obra que se encontra o controverso Testemunho Flaviano. Tal controvérsia reside do fato de não ser unânime entre os estudiosos a autenticidade do trecho, onde o autor fornece valiosas informações sobre Jesus e os primórdios do cristianismo.
Eis a passagem:

Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se na verdade podemos chamá-lo de homem. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. Ele era [o] Cristo [Messias], E quando Pilatos, por causa de uma acusação feita pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-o a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de fazê-lo. Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu" (JOSEFO, 1974, p. 205-206).

Paulo Ramos faz as seguintes objeções quanto à autenticidade do texto:


Segundo os evangelhos, Jesus era famoso e muito popular na Galileia; por outro lado, Josefo viveu na Galileia num tempo muito próximo da época em que supostamente Jesus teria lá vivido, mas “escreveu” apenas umas poucas linhas acerca de Jesus; para contrastar descreveu demoradamente Judas da Galileia (ou o Gaulanita), um homem que promoveu uma rebelião em 6 EC (Guerras II. 8.1; 17.8 e Antiguidades XVIII. 1.1-6); - o “Testimonium Flavianum” menciona Jesus em termos bastante elogiosos, reconhecendo que ele era o Cristo; no entanto, não há nada que indique que Josefo se tenha tornado cristão ou, de alguma forma, seguidor de Jesus; - se Josefo considerasse que este Jesus, alegadamente executado por Pilatos, era o Cristo e tinha ressuscitado, certamente teria investigado mais eteria feito uma descrição mais detalhada sobre Jesus; - “... e a tribo dos cristãos não se extinguiu até hoje” – quanto tempo é que já tinha durado essa “tribo” na perspectiva de Josefo? - esta passagem foi referida por Eusébio, um dos fundadores da Igreja Católica, no seu livro História da Igreja (século IV), mas outro apologista cristão do século III, Orígenes, que também fez uso da literatura de Josefo nunca cita esta passagem.(RAMOS, 2009, p.17)

No nosso entender, não devemos nos surpreender se Jesus passou quase que despercebido por Josefo, pois já foi aqui mencionado o fato de que a figura de Jesus só ganhou maior evidência quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano. Antes disso, poucos judeus estavam interessados na figura do fundador de um movimento “dissidente e minoritário, perseguido pelo implacável aparelho estatal do Império Romano” (PILLAGALO, 2010, p.7).
Segundo Maria Antônia Costa Pereira, mestre em história e cultura clássica:

Tem sido eterna a discussão na comunidade científica sobre a sua autenticidade, seja ela total ou parcial. Após décadas em que as posições se extremaram, em acesos debates, hoje em dia tende-se para uma postura mais sensata: a de aceitar o testimonium como uma edição cristã de um parágrafo original de Josefo. (PEREIRA, 2004, p.192)

Portanto, Paulo Ramos está certo quando observa que o texto em análise provavelmente “tenha surgido por corrupção de uma passagem existente de modo a dar algum suporte à existência de um Jesus Cristo histórico”.

São temas de discussão, os seguintes trechos:

“... se na verdade podemos chamá-lo de homem (...)”: Pelo fato de Flávio Josefo ter sido um judeu pertencente aos grupos dos fariseus, é pouco provável que ele atribuísse a Jesus uma característica sobre-humana.
Ele era [o] Cristo (...)”: Dificilmente Flávio Josefo, um homem profundamente ligado com suas raízes judaicas, reconheceria a figura do Messias em Jesus, e não existem evidências de que ele, Josefo, tenha se convertido ao cristianismo.
Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. (...)”: A ressurreição de Jesus jamais seria admitida por um judeu convicto, por isso esse trecho é muito provavelmente uma interpolação[11].
Assim, se retirarmos os trechos identificados como interpostos do texto original, iremos obter o seguinte resultado:
Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feita pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-o a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de fazê-lo. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu.
Podemos perceber como o texto mantém-se coeso mesmo depois de retirarmos as frases interpostas, configurando assim, um importante registro históricoextra bíblico, que corrobora dois dos fatos mais importantes dos Evangelhos: a condenação de Jesus por Pôncio Pilatos e a morte de Jesus em suplício na cruz.
Peter Kirby, (KIRBY, 2001) citou a análise de Louis Feldmann[12], que examinou a literatura disponível sobre o Testemunho Flaviano, no período que se estende de 1937 até 1980, num total de 52 estudiosos analisados. Quatro o consideraram totalmente autêntico, seis o consideraram basicamente autêntico, vinte o consideraram autêntico em partes, com algumas interpolações, nove o consideraram autêntico em parte, com várias interpolações e treze o consideraram totalmente falso.
Como se pôde observar é consenso entre a maioria dos estudiosos analisados que o Testemunho Flaviano é autêntico em partes, com algumas interpolações, o que o torna um importante documento de corroboração ao conteúdo dos Evangelhos, pois com ele, sabemos que Jesus foi um homem considerado sábio, realizou coisas tidas como surpreendentes, tinha seguidores, foi condenado à morte, crucificado, e seus seguidores continuavam falando em seu nome, ficando conhecido mais tarde como cristãos.
Quanto ao fato de o testemunho Flaviano não ter sido citado em obras anteriores ao século IV, chegamos à conclusão de que realmente Orígenes e outros pais da igreja do século II e III não citam essa passagem em seus trabalhos.
Contudo, achamos precipitada a conclusão de Ramos, fundamentados no trabalho de Gerd Theissen (2003,p.88) onde consta a hipótese de que talvez, Orígenes possuísse uma cópia diferente do texto de Josefo, não possuindo as interpolações. Baseados nisso, podemos levantar a hipótese de que Orígenes, sendo um profundo conhecedor da obra de Josefo, soubesse que o testimonium flavianum não fosse confiável, achando prudente não utiliza-lo como fonte de seus trabalhos. Somente com os avanços das técnicas filológicas é que se pôde constatar, então, que este texto de Flávio Josefo não era de todo falso.
Assim, em nossa visão, não existe uma questão realmente séria capaz de refutar a autenticidade deste documento e podemos, ademais, encerrar este capítulo reforçando o que foi exposto sobre este importante documento, usando, mais uma vez o trabalho de Gerd Theissen:
Numerosos pesquisadores supõem que o conteúdo original de Ant (Antiguidades Judaicas) 18,63s, seja uma narrativa sobre a tentativa de revolta do líder político-religioso Jesus, que as autoridades judaicas eliminaram pela raiz ao entregar o desordeiro.(THEISSEN, 2003, p.90).

Eis aqui exposta, uma definição mais acertada referente ao conteúdo do testemunho flaviano, despido de toda a bagagem cristológica dos Evangelhos, porém, que reforça o aspecto histórico desses escritos constituindo assim, em uma fonte externa de suma importância no estudo do Jesus histórico.



 Capítulo 2: Anais


Ao chegar a Roma, em um primeiro momento o cristianismo fora bem aceito, assim como aconteceu com o judaísmo. Contudo, em meados de 64 DC, tanto os soldados quanto a população em geral, começaram a perceber que o cristianismo era substancialmente diferente do judaísmo, pois os judeus não aceitavam os ensinamentos cristãos. A insistente postura dos cristãos em não prestarem juramento a outros deuses nos tribunais causou estranheza a uma sociedade em que o politeísmo estava arraigado à cultura do cidadão romano. Aos poucos o cristianismo foi sendo colocado na ilegalidade, uma vez que não era prática de seus adeptos, aceitarem os deuses romanos.
Foi em 19 de junho de 64 que durante sete dias, uma região de trabalhadores de Roma foi consumida pelas chamas. Num total de 14 quarteirões, 10 foram totalmente destruídos no incêndio que também ceifou muitas vidas. O boato que se espalhou na época, foi a de que o imperador Nero havia sido o responsável pelo incêndio.
O fato é que toda a região afetada foi reconstruída a custo de muito dinheiro público e Nero acabou se apoderando de uma grande extensão da área onde, mais tarde, mandou erigir os Palácios Dourados. Ao final, Nero acabou sendo beneficiado pelo incêndio, mas o mesmo não pode ser dito em relação aos cristãos:

O incêndio pode ter sido a maneira rápida de renovar a paisagem urbana. Objetivando desviar a culpa que recaia sobre si, o imperador criou um conveniente bode expiatório: os cristãos. Eles tinham dado início ao incêndio, acusou o imperador. Como resultado, Nero jurou perseguir e matar os cristãos (CURTIS, 2008, pp. 11 e 12)

Uma das citações mais importantes sobre Jesus, fora dos Evangelhos, é sem dúvida a que foi feita pelo historiador Tácito (55-120 D.C.), em sua obra “Anais”, no qual relata a vida dos quatro imperadores que sucederam a César Augusto e também no qual podemos encontrar registros sobre os mesmos fatos acima descritos. Esta obra, que data entre os anos de 115 e 120 D.C.,é uma das cinco produções deste historiador que além da obra, “Anais” também escreveu: “Vida de Agrícola”, “Germânia”, “Diálogo dos Oradores” e “História”. (BELCHIOR, 2011)
Públio Cornélio Tácito é considerado um dos maiores historiadores da antiguidade e deixou registradas as seguintes palavras sobre Jesus:

Portanto, para acabar com os rumores, [Nero] acusou falsamente as pessoas comumente chamadas de cristãs, que eram odiadas por suas atrocidades, e as puniu com as mais terríveis torturas. Christus, o que deu origem ao nome cristão, foi condenado à morte por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério; mas, reprimida por algum tempo, a superstição perniciosa irrompeu novamente, não apenas em toda a Judéia, onde o problema teve início, mas também por toda a cidade de Roma. (TACITO, 2004, p. 325)



Neste trecho da obra, Tácito conta como o Imperador romano Nero (37-68 D.C), acusou os cristãos pelo incêndio que devastou Roma, no ano de 64. Esta passagem é de extrema importância na análise da historicidade da vida de Jesus, pois demonstra como o cristianismo se difundiu na Judéia e em Roma, apesar dos esforços para conter a “superstição perniciosa”, segundo a definição do próprio Tácito. É curioso observar um movimento violentamente combatido conseguir cada vez mais e mais adeptos, mesmo se tratando de uma crença centrada em um homem que foi morto da forma mais vexatória[13] que existia na época.

Paulo Ramos faz um levantamento de quatro objeções contra a autenticidade desta passagem:



Tácito escreveu cerca de oitenta anos depois da suposta crucificação de Jesus; nesta época já os cristãos (e os não cristãos) possuíam as narrativas evangélicas. Este autor não menciona um homem com um nome próprio Jesus, mas um homem que era conhecido pelo título de Cristo; e no primeiro século havia muitos a reclamar o título de Cristo (Messias). Refere-se a Pilatos como procurador e não como prefeito (para um historiador romano seria uma grande diferença) um procurador respondia diretamente perante o Senado ou ao Imperador, enquanto um prefeito respondia a um procurador. A passagem não é citada por nenhum dos grandes apologistas cristãos dos primeiros séculos, incluindo Eusébio (século IV).(RAMOS, 2009, p.52).

A primeira objeção nos pareceu estranha, uma vez que contesta a historicidade de Tácito com base nos anos que separam os fatos da época em que foram registradas, principalmente quando pensamos em obras como a Anábase de Alexandre Magno, escrito por Arriano de Nicomédia no século II, tendo Alexandre Magno morrido em 323 A.C e mesmo assim, os historiadores consideram a obra bastante confiável (LEMES, 2008, p.15). Com isso, chega a ser mesmo risível, querer suspeitar de um documento baseado apenas nos 80[14] anos de diferença entre os fatos e a data em que os mesmos foram redigidos.
Quanto à segunda objeção, acreditamos que a forma como foi formulada empobrece a questão, pois a polêmica verdadeira reside na palavra “Chrestus” utilizado por Tácito, que tem um significado diferente de “Cristo”. Vejamos o que A. J. Woodman, especialista na obra de Tácito nos informa em uma nota retirada de sua tradução dos Anales.

"Chrestiani" é a forma como o nome aparece pela primeiravez no manuscrito M, mas que o escriba mudou para "Christiani", sem dúvida influenciado pelo que o manuscrito T. diz na sentença posterior. No entanto, a coexistência entre "Chrestiani" e "Christus" não é impossível: o manuscrito T poderia estar se referindoao o nome comum para a seita, evidentemente atribuído aos cristãos, efeito uma confusão com a palavra grega chre-stos ("Bom", "honrável”) [...] (WOODMAN, 2004, p. 25).

Assim, acreditamos que a segunda objeção levantada é fruto de um conhecimento incorreto do tema e também uma conclusão apressada, sem o aprofundamento que o assunto carece, pois não se conhece, em Roma, um movimento que tenha como centro algum outro Cristo, que tenha sido executado na época de Tibério e Pilatos, que não seja Jesus.
Quanto ao fato de Tácito ter usado o título de procurador e não prefeito, o autor da objeção parece não ter conhecimento que na mesma obra, “Anais”(2004, 12.60), Tácito explica como naquele período específico da história, Pilatos havia acumulado as funções de procurador e prefeito, por ordem do Imperador Cláudio.
Quanto à última objeção, é razoável ponderar que os primeiros apologistas não usaram essa passagem porque não havia nos primeiros anos do cristianismo, dúvidas sobre a existência histórica de Jesus. Para que então, usar os escritos de um inimigo do cristianismo? Foi somente no séculoXVIII sob a égide do Iluminismo, que começaram a surgir às primeiras dúvidas sobre a historicidade de Cristo (CORNELLI, 2006, p.17) e a partir disto, é que se começou a utilizar não somente esta, mas outras passagens advindas de fontes não cristãs.
Diante destes fatos, somos obrigados a concluir que não existem boas objeções[15] à autenticidade deste documento, o que o constitui, pois, uma importante evidência do Jesus histórico.

 

O Talmud


Denomina-se “Talmud”, a coleção de discussões rabínicas sobre questões éticas, culturais e históricas do judaísmo, que formam o livro sagrado dos judeus.
 Foram compiladas duas versões do Talmud: uma no século III, em Israel, ficando conhecida como Talmud Jerusalém. Uma segunda versão foi compilada 200 anos depois, recebendo o nome de Talmud Babilônico.
É no Talmud Babilônico, que se encontra uma interessante passagem:

[...] Entretanto foi ensinado que, na vigília da festa da Páscoa, Jesus foi suspenso. Porém, quarenta dias antes, o arauto havia proclamado que ele seria apedrejado por praticar a magia e por ter seduzido Israel para a apostasia. Poderia, quem quisesse, vir e falar algo em sua defesa, mas como nada foi feito em sua defesa, foi suspenso na véspera da Páscoa. Ula objetou: “Tu acreditas que algo poderia ser dito na defesa dele? Ele não era um sedutor, como fala a Escritura: ‘não o perdoarás, nem o defenderás?” Contudo, as coisas foram diferentes com Jesus porque estava em relação com o governo.(Tratado do Sinédrio 43ª)

Essa passagem é repleta de informações interessantes: a crucificação de Jesus à véspera da Páscoa corroborando o que os Evangelhos afirmam; as “práticas de magia”, uma das coisas pelas qual Jesus foi condenado, o que mais uma vez concorda com as informações dos Evangelhos segundo a qual Jesus realizava atos tidos como sobrenaturais e a expressão “relação com o governo” que seria, talvez, uma referência à descendência davídica de Jesus.
Além da passagem acima descrita, podemos também encontrar em outras partes do Talmud, passagens que se assemelham ao que os Evangelhos nos informam sobre Jesus, aqui, compilado por Paulo Ramos, no seu trabalho: Jesus: história ou ficção?


Talmud Sanhedrin, 67a - Ensina-se: Para todos as outras puníveis com pena de morte [excluindo a idolatria] nós não ocultamos testemunhas. Como tratam o acusado de idolatria? Apontam uma lâmpada para ele na câmara interna e colocam testemunhas na câmara exterior de modo que possam o ver e ouvir mas este não aspode ver ou ouvir. Diz-se-lhe "diz-me outra vez o que me disseste em privado". Se ele disser "como podemos nós esquecer o nosso Deus no céu e praticar idolatria?" e arrepende-se, tudo bem. Se disser "esta é nossa obrigação e o que nós devemos fazer" as testemunhas que o ouvem da parte externa devem dirigi-lo ao pátio e oapedrejar. E assim fizeram a Ben Stada, em Lud [Lydda, a pouca distância de Jerusalém], e penduraram-no na véspera da Páscoa. Ben Stada era Ben Pandira. Rabi Chisda disse: O marido [da mãe] era Stada e oamante era Pandira. Não era o marido [da mãe] Pappos Ben Yehudah? O nome de sua mãe era Stada.Mas não era a sua mãe, Miriam, cabeleireira [megadla nashaia] das mulheres? Como se diz em Pumbedita: Afastou-se [stat Da] do seu marido. (RAMOS, 2009, p.8)



Tosefta Chullin 2:23 - Aconteceu que o Rabi Elazar ben Damah foi mordido por uma serpente e Yakob (ou Jacob, Iago, Tiago) da vila Sechania o curou em nome de Yeshu ben Pandira, mas o Rabi Yishmael não o permitiu.(RAMOS, 2009, p.9)

As passagens fazem referência a um personagem chamado Yeshua Ben Stada, também chamado de Yeshua Ben Pantera, com quem podemos notar semelhanças com os relatos sobre Jesus nos Evangelhos.
Sobre estas passagens, Pedro Lucas Dulci informa:

Também podemos ver no Talmude outro título dado a Jesus em vista de ridicularizá-lo, a saber, o título de “Ben Pandera”, ou seja, “filho da pandera”. Muitos estudiosos afirmam que “pandera” é um jogo de palavras, um trocadilho com a palavra grega panthenos, que significa “virgem”, ou seja, estavam chamando-o de “filho de uma virgem”. Klausner novamente afirma que “o nascimento ilegítimo de Jesus era uma ideia corrente entre os judeus”. É claro que, como seria de esperar, justamente por essa crença popular, existe muitos argumentos contrários a essa crença corrente entre os judeus dos primeiros séculos quando ao nascimento virginal de Jesus. (Dulci, 2010, p. 5).

Werner Keller, em seu clássico livro “E a Bíblia tinha Razão” também apresenta uma opinião semelhante:
Os cristãos referiam-se a Jesus como o "filho da Virgem". Os judeus aferraram-se a esse oportuno ponto de apoio, apoderando-se mais que depressa desse mistério para difamá-lo. "Parthenos" em grego significa "virgem". A palavra "parthenos" foi falseada. Com escárnio, os judeus chamavam ao "filho da Virgem" "bem ha-Pantera", que na sua língua queria dizer "filho da pantera”. Com o correr do tempo, a origem dessa designação caiu no esquecimento. .Os próprios judeus não sabiam mais que em seus próprios círculos Jesus era chamado com ironia pelo nome de sua mãe. Dessa maneira a palavra escarninha "Panthera" e, com ela, a narrativa tendenciosa adquiriram mais tarde um sentido completamente diverso. (KELLER, 1992, p. 405)

Por essas razões, concordamos que essa fonte judaica é a mais importante evidência histórica sobre Jesus fora dos evangelhos,especialmente por se tratar de uma passagem cujo objetivo era denegrir a imagem de Jesus, visto que, apesar do tom pouco lisonjeio, o documento acaba por confirmar vários pontos que fazem parte da crença dos cristãos espalhados pelo mundo. A saber:Jesus era um mestre itinerante da Palestina; possuía seguidores; executava ações tidas como sobrenaturais; Foi preso pelas autoridades da época; foi morto as véspera da páscoa.
Desta forma, o documento que originalmente tencionava descontruir a imagem de Jesus, se tonou uma imprescindível evidência, que hoje, nos ajuda a lançar uma luz histórica sobre a vida de Jesus.

 A carta de Plínio, o Jovem.


Faz parte do arcabouço de fontes externas referente à vida de Jesus, a carta de Plínio, o Jovem, ao Imperador Trajano, redigida no ano 112 DC. (RAMOS, 2006, p, 53).
 Segundo Dominique Monge Rodrigues de Souza (2010 ,p.1), Gaius Plinius Caecilius Secundus, conhecido como Plínio, o Jovem, por ser sobrinho de Plínio, o Velho, que o adotou em testamento por volta do ano 80 e 81 DC, período em que também começou a sua carreira pública.
Nascido por volta de 61-62 teve uma vida profissional próspera.
Sendo sobrinho de Plínio, o Velho, autor e naturalista da Antiguidade que morreu na erupção do Vesúvio em 79, iniciou a sua carreira por volta no ano 80, tornando-se questor[16], efetivando desta forma sua entrada no Senado.Três anos mais tarde torna-se pretor e em 94 se torna responsável pela administração do tesouro militar (praefectus aerarii militaris).
Em 98 se torna administrador do tesouro público do templo de Saturno, onde por meio de suas relações interpessoais consegue ser nomeado cônsul em 100 DC
E nestas condições é que no ano 112 DC, Plínio, o Jovem, escreve uma carta ao imperador Trajano pedindo conselhos de como agir com certo grupo de religiosos que se recusavam a fazer juramentos:


As acusações avolumaram-se, como costume, por causa dos procedimentos envolvidos, e ocorreram vários incidentes. Foi publicado um documento anónimocontendo nomes de muitas pessoas. Absolvi aqueles que negaram ser ou ter sido cristãos, quando invocaram os deuses por palavras ditadas por mim e rezaram comincenso e vinho perante a tua imagem...E as dos Deuses e, mais importante,amaldiçoaram Cristo – o que, segundo se diz, nenhum verdadeiro cristão faria. Outros,nomeados pelo informador [anónimo], declararam ser cristãos, mas depois negaram, todos adoraram a tua imagem e as dos Deuses e amaldiçoaram Cristo.No entanto asseguraram-me que o que precipitou a acusação foi o costume dereunirem-se num dia fixo, antes do nascer do sol, para rezarem a Cristo como se estefosse um deus; e fazerem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometerroubo ou saque, ou adultério, nem quebrar a palavra, e nem negar devolver umaquantia emprestada quando exigida. Após fazerem isto, despediam-se e encontravam-senovamente para a refeição [...] [RAMOS, 2006, p. 53].

Este trecho ajuda-nos a entender os costumes dos cristãos primitivos, que se reuniam para rezar a Cristo “como se fosse um deus”. A sua importância, reside no fato de que, sendo um documento datado no ano de 112 DC, temos um espaço de 79 anos desde a morte de Jesus. Aos que defendem a tese de um Jesus mitológico que surge depois da morte do Jesus histórico, como David Friederich Strauss, levanta-se um problema crucial: no mundo antigo, um mito leva no mínimo dois séculos para se formar, porém, no caso de Jesus, temos um tempo insuficiente para que isso ocorra. (WHITE, 1963, p.188-91)
O ensinamento do cristianismo sobre o messias difere substancialmente do judaísmo. Para começar no judaísmo não havia o ensino de um messias que sucumbiria perante os inimigos, muito pelo contrario, o messias devera ser aquele que livraria Israel de uma vez por todas de seus opressores. Certamente, como explica N.T. Wrigth:


Se um messias fosse morto pelos pagãos, especialmente se ele não tivesse reconstruído o Templo ou libertado Israel, este era o mais seguro sinal de que ele era mais um em uma longa linha de falsos messias. (WRIGTH,1998, p. 8)

Sendo assim podemos concluir que em pouquíssimo tempo, todo o sistema de crença cristã que envolvia um messias crucificado já estava pronto, contrariando o que se sabe sobre o desenvolvimento de mitos na Antiguidade. Surge aqui uma dificuldade para os defensores do Jesus mitológico.
Ponto central da crença cristã é o ensino da ressureição dos mortos que, difere sobremaneira da crença judaica.
No judaísmo a ressurreição assumia um caráter simbólico, representando a restauração de Israel que fora libertada de seu exílio babilônico. Fazia parte também a crença em uma ressureição literal (Wright, 1998, p.10), dos mártires, dos justos e dos patriarcas, que inauguraria a Era Vindoura.
Dizer a um judeu do primeiro século que alguém pudesse ressuscitar dos mortos antes desta Era Vindoura, antes dos patriarcas, dos justos e dos mártires era dizer algo totalmente estranho ao que era ensinado pelo judaísmo (Wright, 1998, p.11).
Levando em consideração que o cristianismo surgiu como uma dissidência, porém de origem judaica, é curioso observar como essa nova práxis se desenvolve, especialmente em Jerusalém, onde todos os fatos se desenrolaram e, portanto, local que deveria comportar um maior número de testemunhas oculares. Ou algo extraordinário, no sentido literal da palavra, algo que excede à ordem natural dos acontecimentos, aconteceu, ou outra explicação será necessária como a que foi dada por Daniel Soares Veiga, que em seu trabalho aponta para uma “especificidade sócio-histórica” da região da qual Jesus era originário, a saber, a região da Galileia.  (VEIGA, 2005, p. 120).
Segundo Veiga, essa região, desde a época do Rei Salomão havia se distinguido tanto das demais regiões da Judéia, que basicamente desenvolveu a sua própria compreensão sobre o messias e a ressureição. Esta distinção histórica e sociológica serviria como explicação satisfatória para a forma diferenciada como Jesus de Nazaré e depois seus seguidores entendiam e ensinavam sobre crenças tão arraigadas na cultura judaica.
As conclusões de Veiga, contudo, diferem das de outro estudioso do tema.
Em uma entrevista concedida à TV PUC em agosto de 2008, Richard Horsley, professor de línguas clássicas e da religião University of Massachusetts, Boston, EUA, informa que a mensagem de Jesus, era distinta do que era propagada tanto na Galiléia, quanto no restante da Judéia, haja vista os casos de messianismo que ocorreram naquela região antes da época de Jesus, sempre relacionados a rebeliões armadas e nunca com a uma ressurreição que ocorreria antes da Era Vindoura.
Assim, relacionando esta nova concepção cristã com a datação dos documentos que a relata, dentre as quais se inclui a Carta de Plínio, o Jovem, temos ai um forte indício que depõe contra os defensores do Jesus mitológico.













Conclusão


Diante de tudo o que foi apresentado neste trabalho, podemos observar que as principais objeções que procuram distanciar o “Jesus da história” do “Jesus da fé”, não suportam a uma análise crítica: o fato de não existirem muitos relatos sobre Jesus feitos por contemporâneos, se deve ao fato de que a figura de Jesus, só se tornar importante quando o cristianismo se tornou religião oficial em Roma. Antes disso, o cristianismo não passava de uma seita judaica sem maior importância e que era combatido tanto pelos judeus, quanto pelos romanos.
Quanto aos Evangelhos, vimos que muitos de seus relatos são corroborados por fontes independentes, o que certamente fortalece o documento do ponto de vista histórico bibliográfico.
Tentou-se levantar que o fato de os Evangelhos possuírem relatos sobrenaturais, o desqualificaria como possuidor de crivo histórico. Claro que este argumento se desfaz facilmente, quando levamos em consideração a função da disciplina histórica, que não inclui a análise de questões metafísicas, não estando por isso, qualificada a tirar conclusões negativas o positivas sobre o tema. Poder-se-ia objetar, entretanto, como de fato foi feito, que faz parte da tradição historiográfica a análise das crenças, mentalidades religiosas e do imaginário. De fato, isso tem sido feito desde que foi iniciada, na França, a “história das mentalidades”. É obvio que tal objeção é fruto de uma confusão entre o estudo dos “fatos metafísicos” tal qual ele é abordado pela filosofia e o estudo das relações que as pessoas desenvolvem com essas crenças, ou suas origens. Por exemplo, existe uma brutal diferença entre estudar a influência que a crença na ressurreição de Cristo tem exercito sobre um determinado grupo através dos tempos, do estudo da ressurreição de Cristo enquanto acontecimento sobrenatural ao qual a história não tem acesso.
  Assim, resta ao historiador se ater ao conteúdo histórico dos Evangelhos, cruzando-o com outras fontes históricas, para tentar revelar o que provavelmente aconteceu no passado.

Somando todas as evidências: a qualidade dos Evangelhos enquanto documentos históricos e das fontes que corroboram seu conteúdo, podemos encerrar afirmando que 2,2 bilhões de cristãos, têm a suas crenças firmadas em sólidas bases.




















Referências bibliográficas

Livros antigos
JOSEFO,  Flávio. Antiguidades Judaicas.São Paulo: Edameris, 1974
TÁCITO, Cornélio. The Annals. Indianapolis/Cambridge: Hackett Publishing Company, Inc, 2004

Livros Contemporâneos
CARSON, D.A. MOO, D. J. MORRIS Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.
CHEVITARESE, A.L. (org); CORNELLI, Gabrieli. SELVATICI, Monica. Jesus de Nazaré: Uma outra história.  São Paulo: Annablume;  Fapesp , 2006.
CONELLI, Gabrieli. A história da busca do Jesus Histórico.
in:CHEVITARESE, A.L. (org).Jesus de Nazaré: uma outra história.  São Paulo: Annablume: Fapesp , 2006.
COPAN, Paul. O Jesus dos Evangelhos: mito ou realidade? São Paulo: Vida Nova, 2012.
CURTIS, Kenneth A. LANG, Stephen J. PETERSEN, Randy. Os 100 acontecimentos mais importantes da história do cristianismo: do incêndio de Roma ao crescimento da igreja na China. São Paulo: Vida, 2008.
GEISLER, Norman; NIX, William. Introdução Bíblica: como a Bíblia chegou até nós. São Paulo: Vida, 1997.
KELLER, Werner. E a Bíblia tinha Razão. São Paulo: Melhoramentos, 1992.
PILAGALLO, Oscar, et al. O sagrado da história: Cristianismo. São Paulo: Duetto, 2010
RENAN, Ernest. Vida de Jesus. São Paulo: Martin Claret, 2003

SCHIAVO, Luigi. As fontes dos ditos de Jesus e as raízes da cristologia.in: Jesus de Nazaré: uma outra história.  São Paulo: Annablume;  Fapesp , 2006
THEISSEN, Gerd. MERS, Annette. O Jesus Histórico. São Paulo: Loyola,
WHITE, A. N. Sherwin. Roman society and Roman law in the New Estament, Oxford, Clarendon Press, 1963

Artigos


ALVES, Ana Elizabeth Santos. SILVA, Lígia Maria Portela da. Fontes históricas documentais e os estudos sobre o trabalho e a educação.Bahia: UESB, 2004.

BELCHIOR, Ygor Klain. Biografia de Públio Cornélio Tácito.  Filia - Informativo de História Antiga – Out, Nov, Dez de 2011 – Núcleos de Estudos da Antiguidade – UERJ.
DULCI, P. L. A historicidade de Jesus de Nazaré e seu movimento religioso. Goiás: 2009
EHRMAN, Bart. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?: quem mudou a bíblia e por quê? Rio de Janeiro: Prestígio Editorial, 2008.
LEMES, André Luiz. Ascensão e legitimação de Alexandre, o Grande, na “Anábase de Alexandre Magno” de Arriano de Nicomédia. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2008.

RAMOS, Paulo. Jesus: História ou Ficção?  São Paulo: Humanismo Secular Portugal, 2009.
SANTOS, Samuel N. Criticismo neo testamentário e os evangelhos enquanto fontes histórico biográficas para construção de uma Vita de Jesus. Goiás: RJHR, 2010
SOUSA, Dominique Monge Rodrigues.Considerações acerca da análise documental da obra epistolar de Plínio, o Jovem.  São Paulo: FAPESP, 2010.

VEIGA, Daniel Soares. O messianismo de um Galileu chamado Jesus e sua visão de um novo tempo e de um novo templo. Rio de Janeiro: UFRJ, 2005.
WRIGHT, N.T. As Origens Cristãs e a Ressurreição de Jesus: A Ressurreição de Jesus como um Problema Histórico. Sewanee Theological Review, 41.2, 1998.




Páginas consultadas:
KIRBY, Peter. Testimonium Flavianum, disponível no site: http://www.earlychristianwritings.com/testimonium.html Acessado dia 30/06/2012
Talmude Babilônico, tratado Sanhedrin , 43ª, disponível no site:



[1] Conclusões a que chegou claramente influenciado pelo movimento do Iluminismo alemão
[4] Dr. Craig se tornou nos últimos tempos, particularmente conhecido com a divulgação de seus debates no youtube. Para assistir ao debate entre William Lane Craig com Bart Ehrman, acesse http://www.youtube.com/watch?v=mIfWl1_dIVI
[5] O gnosticismo são correntes filosóficas que, a partir do século II, buscou se contrapor à visão mais antiga de Jesus, apresentando-o como um ser unicamente espiritual. Há indícios de que o evangelho de João tenha sido escrito para combater esse ensinamento.

[6] A Igreja Cristã Primitiva são os primeiros agrupamentos formados pelos cristãos, antes de o cristianismo se tornar a religião oficial do Império Romano.

[7]No debate entre William Lane Craig e Bart Ehrman, em 2006, no College of Holy Cross, em Massashusetts, EUA, o limite da pesquisa histórica ficou clara, quando Ehrman argumentou sobre a impossibilidade de se provar acontecimentos sobrenaturais pelos métodos históricos. O Dr. Craig, concluiu daí, que o historiador não tem recursos para negar ou afirmar tais acontecimentos. Assim, quando o estudioso afirma, por exemplo: “milagres não existem”, não pode falar como historiador, mas sim, expor suas convicções filosóficas sobre o tema. Além disso, o fato de algo não ser objeto de estudo da ciência não significa que o tema não possa ser compreendido satisfatoriamente por outras disciplinas, como a metafísica, por exemplo. Questões metafísicas, éticas, estéticas e lógico-matemáticas não podem ser provadas cientificamente, mas estamos prontos a admitir a existência dessas entidades, analisando cada qual em sua própria disciplina.
[8]Denominam-se sinóticos, os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, por esses conterem semelhanças em suas estruturas textuais.
[9]Durante a elaboração deste trabalho foi levantado à questão de que, por ser teólogo, o trabalho do doutor Geisler não constituiria uma boa base. Não concordamos pelos seguintes motivos: mesmo não sendo historiador de formação, um teólogo, principalmente os especializados em apologética possui treinamento em história, o que o habilita a levantar uma discussão histórica sobre o tema. Outro ponto que consideramos ainda mais significativo é o fato de que trabalhos de teólogos como John Dominic Crossam têm sido usados e recomendados por historiadores como André Chevitarese e Pedro Paulo Funari, sendo também recomendado por nosso orientador, como bibliografia a ser consultada para este trabalho. Pra encerrar, podemos citar o Seminário sobre o Jesus histórico, que aconteceu no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, em outubro de 2007, com a presença de historiadores e teólogos, prova cabal de que os teólogos têm muito a contribuir ao debate histórico sobre Jesus. Desde os anos 60-70 a interdisciplinaridade tem sido praticada pelos historiadores sempre com excelentes resultados e, no caso do estudo do Jesus histórico, não tem sido diferente.
[10] De fato, os textos do Alcorão precisaram passar pela revisão de Orthman e, mesmo assim existem sete variações deste texto revisado.
[11] Inserções posteriores a um texto original
[12]Feldman, Louis H. Josephus and Modern Scholarship.Berlin; New York: W. de Gruyter, 1984.
[13] Criado pelos persas, assimilado pelos cartaginenses e copiado pelos itálicos, a crucificação era uma forma de execução que misturava elementos de vergonha e tortura.
[14] O material lendário sobre Alexandre, o Grande só apareceu séculos depois.
[15] Durante a elaboração deste trabalho tentou-se objetar que, o fato de um documento ser autêntico não,impede ter ele conteúdo fictício. Concordamos com a afirmação. Contudo, gostaríamos de ressaltar que até o momento, não nos foi apresentado um motivo para duvidar dos fatos aqui expostos. A obra “Anais”, de Tácito é reconhecida e respeitada por vários estudiosos como o professor A. R. Birley, especialista em história Antiga e A. J. Woodman, professor de história Antiga e Clássica da Universidade de Durham, Inglaterra, responsável por uma excelente tradução desta obra para o inglês.  Nenhum estudioso sério desta obra insinuou que seu conteúdo fosse fictício, sem omitir, contudo, o fato de que em se tratando de fontes antigas, dúvidas e fatos obscuros são frequentes.
[16] Questor era o cargo público romano, primeiro passo para a escalada política.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Teoria da Históra


O cientificismo, processo pelo qual passou a Europa durante o século XIV, foi largamente usado como justificativa para a dominação do europeu sobre os outros povos, numa reedição do colonialismo do Antigo Regime. Assim, a Física, a Química e, sobretudo as ciências humanas: História, Antropologia e a Sociologia, forneceram o arcabouço teórico que elevava a Europa ao status de porta vóz da modernidade, da tecnologia e do progresso. Como tal, cabia a Europa levar por bem ou por mau esse benefício aos povos atrasados.

Neste contexto a disciplina histórica é tratada de forma semelhante às ciências exatas, onde o historiador se torna um coletor de dados, buscando uma legitimidade empírica dos fatos. Buscando esta legitimação através de dados oficiais, a história serviria para comprovar cientificamente a supremacia de um povo e justificar sua dominação no regime neocolonialista.

Este método de fazer história centralizado nas grandes personalidades e na temática política, somente sucumbiu com o surgimento da história dos Annales em 1929. Por meio deste novo movimento, a história deixa de ter uma temática somente política e começa a se preocupar com o aspecto cultural. Surge a chamada “história das mentalidades” e além das fontes com seus “dados oficiais”, outros elementos são acrescentados e ganham um status documental, como cartas pessoais, fotos, jornais, diários e até peças de roupa. Deste modo a história enquanto ferramenta para promover a supremacia europeia, é questionada uma vez que outra história era contada.

Com o desenvolvimento da história das mentalidades que aconteceu na França, por volta nos anos 60 e 70, essa nova temática cultural possibilita o desenvolvimento de uma micro história, ou seja, a história dos relacionamentos familiares, dos relacionamentos sociais, das crenças, da cultura, da religiosidade, o que, dentro da terminologia marxista em voga na época, era o estudo da superestrutura, ou seja, a identificação de todo o arcabouço  cultural que de alguma forma serve como justificativa para as relações entre a força de trabalho e os meios de produção.

Para este tipo de pesquisa a história começa a se aproximar da antropologia e da sociologia, percebendo-se na pesquisa histórica a utilização de trabalhos e pesquisas dos grandes antropólogos da época.

Desta forma a História deixa de ser apenas o estudo dos eventos passados, como por muito tempo foi definida e passa a ser o estudo do homem no tempo e no espaço, ou seja, o estudo das ações humanas que são realizadas dentro de um dado momento, em um dado local.

É a partir desta nova concepção que os historiadores se dão conta da necessidade da interdisciplinaridade. Ciências como a Geografia, por exemplo, possibilitaria uma descrição sobre o espaço em que os atos humanos são realizados. E como logo se começou a falar de “espaço imaginário” e “espaço literário”, a Psicanálise e a critica literária também passaram a contribuir para as análises históricas. Essa proposta da interdisciplinaridade na História, mais especificamente no campo da Geografia, pode ser verificado na obra “O Mediterrâneo e Felipe II” de Braudel.

No Brasil, contudo, em meados do século XIX os historiadores brasileiros já se dedicavam à cultura indígena em trabalhos etnográficos como “História Geral do Brasil” de Varnhagen.

No século XX vários historiadores brasileiros fizeram nome desenvolvendo a micro história: Capistrano de Abreu, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, representantes da primeira fase da periodização denominada “ensaios formativos”.

A segunda fase “delimitação do objeto história da cultura”, marcada pelo livro clássico de Fernando de Azevedo chamado “A cultura brasileira” de 1943.

Entre 1967 e 1986, a terceira fase se inicia sendo caracterizada como “uma transição entra a historia da cultura e a história das mentalidades”, onde se destacam textos de Ana Beatriz Niza da Silva.

 A história do período colonial é trabalhada na próxima fase, onde se consolida a história das mentalidades.

A característica historiográfica brasileira na atualidade propõe uma crítica à razão histórica, propondo uma solução para o racionalismo carismático. Além de rejeitar este racionalismo, também é característica desta historiografia uma aproximação do antimodernismo, aqui identificado com uma conotação política de emancipação.
O debate sobre a “estrutura e o desejo” contrapõe a estrutura social como formadora dos desejos humanos e os desejos humanos como criadores das estruturas sociais. Nesta disputa onde cada qual defende uma determinada visão da história, existem, entretanto, os que se posicionam a favor da tentativa de elaborar um tipo de historia que possibilite uma visão holística.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Integralismo e Fascismo: é possível comparar?


Mussolini e Plínio Salgado

O primeiro, líder fascista italiano. O segundo, líder do Movimento Integralista Brasileiro. O contexto histórico na qual os dois movimentos se inserem, serve como uma das explicações para seu surgimento: a Grande Depressão de 1930 ocasionou uma mudança estrutural na economia mundial (PRADO, 2009, p.15), mudanças que fortaleceram ainda mais os movimentos nacionalistas identificados como fascismo, na Itália e nazismo, na Alemanha. 
Contudo, o fenômeno fascista não deve ser avaliado como algo que surgiu do nada, como explica João Fábio Bertonha:

Os fascismos do período entre guerras não surgiram, realmente, do vácuo, mas formaram seu corpus a partir de ideias, conceitos e problemas presentes em toda a sociedade europeia há séculos. A grande inovação dos fascistas, na realidade, foi reelaborar essas ideias de forma que elas pudessem servir para as necessidades políticas do período em questão e combiná-las, dando a elas certa coerência (coerência vista aqui em termos subjetivos) de forma que se tornassem politicamente úteis. (BERTONHA, 2008, pp. 100 e 101)

Apesar das semelhantes características dos dois movimentos, algumas poucas diferenças merecem ser destacadas: o fascismo italiano não era tão escancaradamente violento quanto o Nazismo, antissemitismo sempre foi inerente ao movimento nazista, característica que só posteriormente tornou-se observável no fascismo quando Mussolini se aproximou de Hitler. (BERTONHA, 2008, p.101)

Na Itália, cresce a “ameaça esquerdista”. Vencendo as eleições de 1919, a esquerda torna-se maioria no parlamento, porém sua vantagem dilui-se em meio às facções cada qual com seus interesses e pontos de divergências. Sem o apoio da maioria, os liberais e conservadores não conseguiam governar, não restando alternativa a não ser incluir os fascistas em sua célula (PAXTON, 2007, pp.152 e 153).

Assim, começou a escalada de Mussolini ao poder, que se consolidou em 1922.
Se na Itália, sob o comando de Mussolini, os fascistas chegaram ao poder pela força depois da celebrada “Marcha sobre Roma” na Alemanha, Hitler levava os nazistas ao poder por vias legais, recebendo apoio dos conservadores amedrontados diante da “ameaça vermelha” e também da crise do liberalismo que solapou a Alemanha, ainda mais do que outros países da Europa.

A Crise do Liberalismo e o receito da tomada de poder pelos comunistas, parecem ser os fatores que mais contribuíram para a ascensão dos fascistas ao poder. Um estudo mais minucioso dos diversos casos mostrará que, exceto na Itália e na Alemanha, as forças conservadoras usaram os grupos fascistas enquanto eles eram úteis do ponto de vista da necessidade de conseguir uma maior expressão política, frente ao crescimento dos partidos de esquerda, mas tão logo os comunistas eram vencidos esses mesmos grupos fascistas eram esmagados pelo governo.

Em vários países como no Canadá, no Reino Unido e na Austrália, os partidos fascistas foram colocados na ilegalidade. No Brasil, o Movimento Integralista encabeçado por Plínio Salgado, não fugiu a essa tendência.

Surgido em 1932, o Movimento Integralista Brasileiro (AIB) era caracterizado pelo nacionalismo, o anticomunismo e controle governamental da economia. (HILTON, 1977, p.24). Possuía uniforme, praticava a saudação romana (corpo em posição de sentido, com o braço esticado) e rituais, características que permitem aproximar a AIB de outros movimentos fascistas[1].

De fato, o líder da AIB inspirava-se no Movimento Fascista italiano. Movimento que aprendera a admirar quando em viagem à Itália, em 1930, conheceu Benito Mussolini em pessoa.

Assim como na Itália e na Alemanha, a luta contra o comunismo ajudou o Movimento Integralista a ganhar força, (HILTON, 1977, p.25), já que uma das principais metas propagandeada pelo movimento, era o expurgo da “ameaça vermelha”.

Outra característica que vale a pena enfatizar é aquela que expressa à forma legal com que esses movimentos chegaram ao poder: Hitler e Mussolini assumiram seus cargos de chefe de governo, tendo sito convidados pelos respectivos chefes de Estado “no exercício legítimo de suas funções oficiais” (PAXTON, 2007: 165).

De forma semelhante, Plínio Salgado iniciou a escalada do Movimento Integralista de forma totalmente legal, começando pela primeira célula do movimento em São Paulo e depois buscando adeptos também em outras regiões do Brasil. Em 1934 o número de pessoas filiadas era de 150.000 e não parou mais de crescer. Utilizando-se de um discurso nacionalista e se aproveitando da onda de medo deflagrado depois do mal sucedido levante comunista, em meados de 1936, o movimento conseguira eleger 3000 vereadores pelo país (HILTON, 1975, p.25-26)

Contudo, se na Itália o movimento fascista alcançou êxito beneficiado pela burguesia industrial e pela classe conservadora que era assombrada pelo crescimento da esquerda italiana, buscando por isso apoio na luta contra ela, para os brasileiros integralistas as coisas não se sucederam tão bem quanto para o Duce Mussolini que em 1922, exigiu que o rei Vítor Emanuel III transferisse o poder para os fascistas. Sem escolha, o rei teve que chamar Mussolini para compor o governo e, em 1924, os fascistas já eram maioria no parlamento.

No Brasil, o movimento integralista era grande apoiador do governo Vargas na esperança de um dia, alcançar o poder, como aconteceu com o movimento fascista na Itália. Getúlio Vargas a princípio, mostrou-se simpático ao movimento até o golpe de 1937. Com a instauração do Estado Novo, após 37, os integralistas foram postos na marginalidade. Alguns ainda tentariam sem sucesso, um golpe. Porém o movimento perdeu força e acabou por se dissolver tendo o mesmo destino da maioria dos fascistas espalhados pelo mundo.

Referências bibliográficas

PRADO. Luiz Carlos Delorme. A economia política da grande depressão da década de 1930 Nos EUA: visões da crise e política econômica, semelhanças e diferenças com a crise atual. Rio de Janeiro: UFRJ, 2009.

BERTONHA, João Fábio. A questão da “Internacional Fascista” no mundo das relações internacionais: a extrema direita entre solidariedade ideológica e rivalidade nacionalista. São Paulo: UECP, 2008

PAXTON, Robert O. A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
HILTON, Stanley. Ação Integralista Brasileira: o Fascismo no Brasil, 1932-1938. In: ________. O Brasil e a Crise Internacional, 1930-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

Páginas Consultadas:
Dicionário Histórico Bibliográfico Brasileiro. Disponível no endereço:
http://www.fgv.br/cpdoc/busca/Busca/BuscaConsultar.aspx



[1] Em uma palestra realizada em 31/10/12 na Faculdade UniABC, a professora Ana Maria Dietrich apresentou uma foto na qual lado a lado, na faixada de um prédio, estava a bandeira com o sigma, símbolo do movimento integralista e a bandeira com a suástica nazista. Segundo a professora, um indício de que houve cooperação entre esses movimentos no Brasil.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Debate




Há alguns dias atrás me envolvi em uma polêmica, ao postar em meu Facebook o banner acima.

Esta polêmica resultou em neste debate  entre mim e meu professor, que hoje disponibilizo aqui



ELVIS:  Nenhum futuro brilhante nasce de perdas incomensuráveis.

PROFESSOR: Inspirado em Marx e realmente aprendendo com o estudo da história humana, admite-se com realismo que a "a História não registra quebra de estruturas sem violência". Diga-se de passagem que a própria manutenção do status quo capitalista se dá ao custo diário de "perdas incomensuráveis". Até mesmo o apocalipse bíblico narra a redenção humana precedida por uma catástrofe devastadora, com requintes de crueldade de um deus justiceiro, na qual se salvariam apenas os eleitos! Como grande historiador que ele foi, não poderíamos esperar uma resposta diferente dele: Sim.

ELVIS: Professor, penso que se o capitalismo é uma prática econômica, não uma ideologia com planos para a humanidade. Se ele tem essa característica cruel é por falta de consciência moral das elites. Vejo com desconfiança e preocupação qualquer sistema de ideias que pretenda criar o "paraíso na Terra", ou o "Novo Homem". Creio que a situação apenas piora quando confundimos os Direitos Divinos, com o banho de sangue que o homem promove na tentativa de resolver os problemas do mundo. Hobsbawm foi taxativo, respondeu de maneira coerente com a ideologia que professava. E isso é triste.


PROFESSOR: Seria necessário você estudar profundamente Marx e os marxistas, mas também Weber, para compreender que o capitalismo é muito mais que uma prática econômica. A condenação moral das elites a qual você se refere é apenas uma etapa superficial da crítica ao capitalismo, há que se pensar as estruturas que organizam todo um modo de vida que foi construído historicamente com "banho de sangue", inclusive a "moral" é histórica. Não creio que a afirmação de Hobsbawm seja coerente com uma ideologia (apenas), mas coerente com a História (disciplina acadêmica). Na verdade, suas afirmações que me deixam preocupado, pois me parece que o curso de História foi para você superficial. Fico ainda mais preocupado quando vejo que esse Olavo de Carvalho tem forte influência sobre você e outros estudantes. E isso é muito triste. Há uma dificuldade no processo de compreensão do conhecimento acadêmico, os textos são difíceis, rigorosos, teoricamente e metodologicamente organizados. É o caso da tradição marxista, os autores não são assimiláveis de forma rápida e fácil. Já o discurso retórico dos ideólogos conservadores se assimila por "osmose", pela coerência aparente, pela crítica superficial, por ir ao encontro do "senso comum" amplamente disseminado, por não demandar o exame profundo das questões.


ELVIS: Porém acredito, professor, que essas "estruturas que organizam todo um modo de vida" nasceu com o distanciamento do capitalismo dos valores morais cristãos. Desde o início do século XX é que diversos autores no decorrer da história tem dito isso. Chega até ser injusto o senhor dizer que o curso de historia para mim foi superficial, pois acredito que nem a metade da minha turma teria capacidade de entender o que que estamos dialogando aqui. Engana-se, professor. Não estou cursando história para ser mais um funcionário da rede pública. Minha postura no curso tem sido questionar tudo, alternando a leitura sugerida nas aulas, com outras que apresentem uma visão diferente. É extenuante, mas extremamente gratificante. Não acho que isso é ser superficial. Quanto ao Olavo de Carvalho, muito do que ele escreve é pautado em trabalhos de vários estudiosos, livros que ele indica e que não são conhecidos da maioria. Mas, pra constatar isso o senhor teria que ter contato com a obra dele. Então, devolvo para o senhor a peteca que me mandou, rs.
PROFESSOR: Não afirmei que você é superficial. Compartilhei com você minha suspeita e preocupação de que seu aproveitamento das leituras indicadas no curso terem sido superficiais (rápidas). Pois em minha visão, o estudo da História (disciplina acadêmica) é bastante enfático nas questões das construções estruturais da cultura, economia, política, sociedade, etc. O que escreveu acima, novamente é um exemplo dessa minha preocupação. Quando afirma o "distanciamento do capitalismo dos valores morais cristãos", lembro que há um trabalho clássico de Weber: "A ética protestante e o espírito do capitalismo" que defende justamente a tese oposta e contra Marx, que certamente lhe foi indicado em História Moderna. Não daria para suprir a leitura deste texto para você aqui. Quanto a sua devolução da "peteca", há uma distância incomensurável entre eu lhe indicar o estudo de Marx, reconhecido mundialmente e historicamente como um autor central para o entendimento do capitalismo, até mesmo por aqueles que necessariamente o criticam, e sua indicação de leitura de Olavo de Carvalho, completamente marginal no cenário acadêmico. Bem, estou monido da intenção de lhe sugerir que há um campo de produção intelectual confiável e outros nem tanto. Realmente seria interessante que Olavo de Carvalho participasse, não que ele tenha algum peso. Também não me considero um "peso pesado da história", mas certamente, já tenho bastante referências seguras de quem são os "pesos pesados" e busco aprender permanentemente com eles!


ELVIS: O que escrevi não é tese minha. Como eu disse, existe uma gama de estudiosos que defendem uma posição contrária a aquela apresentada pelas leituras que o senhor indica: são historiadores, sociólogos, economistas, analistas políticos... Pessoas tão capacitadas e brilhantes quanto Hobsbawm, cujo trabalho, infelizmente, não tem sido objeto de estudo em nosso curso. Acredito professor, que o conhecimento nasce com confronto de idéias. Por isso, todo o conhecimento que adquiro na faculdade, todas as teses e afirmações dos professores, procuro pesquisar em outras fontes, pra saber o que o “outro lado” tem a dizer. Quem não faz isso não esta se educando, está sendo doutrinado. Foi fazendo isso professor, foi que descobri que Weber faz uma análise incompleta do capitalismo na obra citada, visto que ele parte do pressuposto de que o capitalismo esta atrelado ao surgimento do Protestantismo, quando na verdade, o mesmo está associado ao Cristianismo.
Professor, quando o senhor fala “há uma distância incomensurável entre eu lhe indicar o estudo de Marx, reconhecido mundialmente e historicamente como um autor central para o entendimento do capitalismo”, soa-me como Argumentum ad populum, pois é óbvio que uma idéia não se torna verdadeira ou falsa somente por sua aceitação ou falta de aceitação pela maioria. A ideia em si é que deve ser avaliada. Não estou querendo dizer que a obra de um é mais importante do que a de outro ou vice versa. Acredito que não é essa a questão. Por isso é que sugeri a leitura de Olavo de Carvalho. Vale à pena reforçar: é o mesmo Olavo quem orienta a não acreditar nele, mas fazer leitura de livros que ele indica, pois o que ele escreve é respaldado por estudiosos do assunto, alguns deles tão clássicos e reconhecidos historicamente quanto Marx. Acredito que nós, estudantes de história, não temos nada a perder tendo contato com ideias diferentes, muito pelo contrário.


PROFESSOR: Concordo com você quando diz que um estudante de história deve buscar outras fontes, para além do que é indicado pelos professores na universidade, exercitando dessa forma a autonomia intelectual. Estabelecer o contraste de ideias e conseguir ter claras as diversas orientações políticas dos autores, tudo isso é mesmo da essência das ciências sociais. Tenho a certeza que os autores e textos que os professores universitários (competentes) indicam, ou seja, a bibliografia que utilizamos, são textos consagrados pela comunidade profissional dos historiadores, com indicação de fontes, seja da bibliografia ou dos documentos históricos, de forma que dificilmente poderíamos afirmar que se trata de uma doutrinação. Quanto ao Weber, sugiro a releitura, pois sua descoberta me parece um tando dissociada de tudo que li sobre a "Ética protestante e o espírito do capitalismo", em todo caso, fiquei curioso de saber onde e como fez essa descoberta, por favor, caso possa, aponte-me o autor e texto, pois é um tema que tenho interesse. Quanto ao Argumentum ad populum que você me acusa, certamente não se aplica a Marx ou à tradição acadêmica marxista. Até mesmo no interior do marxismo acadêmico, há correntes heterodoxas, revisionistas, etc. Diria ainda que o marxismo, justamente pelo potencial crítico que contém, foi alvo predileto do ataque de ímpeto conservador, que construiu historicamente com eficiência no Brasil e no mundo uma contrapropaganda anticomunista, esta sim, fortemente ancorada em Argumentum ad populum, de forte aceitação, justamente porque grande parte da população desconhece a obra marxista e não tem acesso à universidade, pois então poderiam ter acesso a um conhecimento mais aprofundado, os tornando menos vulneráveis à doutrinação conservadora. Sobre o tema do anticomunismo no Brasil, indico a leitura desse trabalho de Rodrigo Patto Sá Motta:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782004000200019


PROFESSOR: Prezado estudante, creio que busquei fazer o meu papel como cidadão e professor de História, alertando-o do perigo bastante contemporâneo que foi agravado pela disseminação da internet, que disponibiliza um quantidade avassaladora de informações, nos colocando o desafio de aprender a selecionar criteriosamente nossas fontes de pesquisa e de estudo. Caso me permita uma última contribuição, para seus estudos das ciências humanas, em suas pesquisas, consulte teses e dissertações, revistas ou publicações de grupos de pesquisas hospedados em sítios de universidades, bem como artigos de revistas científicas nas bases da Scielo Brasil, portal de periódicos CAPES, além das buscas nos acervos das próprias bibliotecas universitárias.


ELVIS: Agradeço imensamente as indicações das obras, as quais irei me dedicar tão logo o tempo me permitir. Gostaria de ter o tempo hábil para me dedicar exclusivamente à leitura e a pesquisa. Contudo, as solicitudes da vida me obrigam no momento, a postergar meu intento, para me dedicar à família, obrigações da faculdade e trabalho, situação e com certeza o senhor entende, posto que, certamente, tem uma vida tão ou até mais corrida do que a minha. Uma pena que neste país seja mais fácil conseguir patrocínio para um atleta do que para a atividade intelectual.
Gostaria, porém, de fazer algumas observações sobre o último post:
Na verdade, primeiramente algumas perguntas: Quantos historiadores de orientação esquerdista estudamos só neste semestre? E quantos foram os de direita? . Outro ponto, a que de deve na área de ciências humanas, uma maior predominância de professores que, embora não se declarem socialistas ou comunistas, digamos que têm um pezinho mais voltado pra esquerda. Só no nosso curso de história temos o Gavião, Dotta, Patrícia Valin, Agostinho (foi inclusive militante e ajudou a fundar o PT), tivemos também a professora Lucirene (também ex-militante). Esses são somente os que eu verifiquei. Todos excelentes professores com os quais aprendi muito, e até onde pude ver, excelentes pessoas também, de quem não recusaria o convite para um churrasco no fim de semana ou uma “breja” em um daqueles barzinhos perto da faculdade. Mas fica a pergunta: de onde vem essa hegemonia? Isso me preocupa muito, porque a faculdade é, ou deveria ser um local de aquisição e produção de conhecimento, não uma fábrica de militantes marxistas. 
Sobre o Weber a análise é do economista José Nivaldo Cordeiro que pode ser lida aqui:
http://www.olavodecarvalho.org/convidados/0190.htm (ok, ok, mantenham a mente aberta, rapazes! E dêem uma chance ao cara!) 
Quanto a Marx, professor Gavião, o referido “ad populum” não foi relativo aos trabalhos de Karl Marx ou as diferentes leituras que se fazem dele, mas me referia à irritante tendência autofágica da academia, em valorizar um trabalho não pelo seu conteúdo, mas pela sua aceitação pela maioria. 
Veja o caso do “enxovalhado” Olavo: foi diretor do Seminário de Filosofia do Centro Universitário da Cidade do Rio de Janeiro, foi diretor da série "Biblioteca de Filosofia" da Editora Record, foi orientador cultural do Instituto Brasileiro de Humanidades de São Paulo, foi secretário-geral da Fundação Brasil Romênia em Bucareste, foi articulista do "Jornal da Tarde" de São Paulo, “O Globo” do Rio de Janeiro e “Zero Hora” de Porto Alegre; das revistas "Bravo!" e “Época". É também autor de diversos livros de reconhecido valor, além de inúmeros artigos, traduções, serviços editoriais e apostilas de cursos. Possui ainda um extenso currículo como Palestrante, inclusive no exterior. 
E depois de tudo isso, o amarfanhado Olavo com uma simples olhadela de vídeos do youtube é reduzido a um "líder de seita”. Posso estar enganado, professor, mas acredito que vídeos do youtube não devem ser o melhor dos recursos para se analisar a obra de um autor. Esses vídeos são caseiros, informais, expressam apenas uma parcela do pensamento dele, idéias com as quais nem todas eu concordo. Acredito que esse preconceito contra o Olavo, seja uma tática pra evitar que sua obra seja analisada seriamente. Evita o trabalho de ter que confrontar suas idéias. Afinal, se não se pode vencer o inimigo, vamos desmoralizá-lo. Exatamente a tática usada por Lênin, Stalin, Mao...
Neste ínterim, pouco importa se o escritor, em seus artigos e livros, dê inúmeras referências de outros estudiosos alguns desconhecidos, outros respeitados e conhecidos. Não, isso não importa. O que importa é que o maior número de pessoas esteja “vacinado” contra este malfadado escritor.
Ao amigo Gabriel Estebam, quando proferi meus “infelizes argumentos” afirmando que metade de nossa turma não entenderia este diálogo, o fiz com a intenção de protestar contra a afirmação do professor Gavião, de que eu estava levando o curso de História de maneira superficial. Mas devo respeitosamente discordar do colega sobre o “plano intelectual que se refletem na realidade social estabelecida, o sucateamento do ensino público, a imposição de planos reacionários de ensino”. Afinal, o método de ensino sócio construtivista, responsável pelo alto índice de analfabetismo funcional e que vigora até hoje, não foi criação de um reacionário.

Pra terminar, sobre a entrevista. O renomado historiador não disse nada que seja fora do que ensinou Marx: ao falar sobre a Comuna de Paris: “foi a magnanimidade desnecessária do proletariado: em vez de exterminar seus inimigos, dedicou-se a exercer influência moral sobre eles” Marx, K.: "A guerra civil na França", 1933, página 80
E Engels: 
“A violência joga outro papel na história: é segundo a frase de Marx, a parteira de toda a velha sociedade, é o instrumento com a ajuda do qual o instrumento social se dinamiza e rompe formas políticas mortas.” Engels, F.: liA DUhring", Ed. 'Sociales, Pat'is, 1950.
E Lênin:
“A liberdade da Classe operária não é possível sem uma revolução sangrenta” Lenin, V. L: "O Estado e 'a Revolução", 1935, página 9
E Hobsbawm ao ser questionado se pela revolução, tudo isso vale a pena:
“Sim.”


·         PROFESSOR: Conteúdo: 1. a tradição do pensamento marxista se fez hegemônica nas ciências humanas e sociais justamente pelo conteúdo crítico que contém, e no campo político foi responsável pelo antagonismo ideológico praticamente de todo o século XX. 2. tradições paralelas se construíram tendo como centro de referência o marxismo, seja buscando indicar suas falhas, seja buscando complementá-lo ou negá-lo, em suma, o marxismo foi o centro que pautou o debate. 3. Realmente minha suspeita se reafirma a cada post seu, só uma leitura superficial poderia concluir que a obra marxiana e a tradição marxista não tem conteúdo. 4. A centralidade adquirida pelo conteúdo crítico do marxismo explica o grande número de historiadores marxistas que tornaram-se, pelo conteúdo crítico dos respectivos trabalhos, pela qualidade da pesquisa documental , a densidade teórica e rigor de método, referências básicas nas bibliografias de cursos no campo das ciências humanas. 5. Entretanto, ele não é mais hegemônico, desde a década de 1990, é possível perceber que pauta do debate nas ciências humanas mudou profundamente.
Pezinho na esquerda. Por que grande número de professores de história são simpatizantes ou militantes de esquerda? Seria porque são oriundos das classes sociais desprovidas dos meios de produção? Porque tiverem a oportunidade de estudar e se identificaram por terem referências diárias das contradições estruturais do capital? Seria por sentem a exploração do capital na pele? Posso compreender que Eike Batista se identifique com Olavo de Carvalho, já sua admiração por ele se apresenta a mim como um desafio sociológico, antropológico ou ainda, psicológico. Estou tentando compreender, com todo o respeito.
Um Olavo no vídeo, outro no texto: isso me parece inconsistente. O do vídeo já me faz perder a vontade de ler o do texto. Talvez no texto a retórica seja um pouco mais rebuscada...mas é realmente apenas uma suspeita...não li.
Currículo conservador. Ok. É um ótimo currículo conservador...e que mais? Quanto ao conteúdo, que tese dele pautou o debate acadêmico contemporâneo? Há alguma interpretação instigante dele sobre o Brasil que tenha merecido atenção no debate acadêmico mais amplo? Afirmar que a academia é burra não serve.
Sobre a retomada do "sim" de Hobsbawm, não será necessário reescrever meu primeiro post.
Discutir o capitalismo com Olavo de Carvalho? Aceito o convite de tomar a cerveja no bar com você...

ELVIS: Existe uma diferença entre estudar o marxismo enquanto fenômeno social, econômico e político e estudar história sob o viés marxista. Este é o ponto. Para estudar o marxismo é essencial estudar os textos de Marx e as análises que se fazem sobre ele. Claro que, para fins de pesquisa, não poderíamos deixar de lado autores marxistas, sobretudo Antonio Gramsci, que tanta influência teve aqui na terra de Cabral. Entretanto, no curso de história, aprendemos, por exemplo, as teorias econômicas de Jorge Beinstein, economista marxista e nem tomamos conhecimento de Ludwig Von Mises que provou por A mais B o porquê de a estatização da economia não funcionar. É este tipo de coisa que me faz pensar, muitas vezes, em uma faculdade/palanque político.

O senhor diz: “Realmente minha suspeita se reafirma a cada post seu, só uma leitura superficial poderia concluir que a obra marxiana e a tradição marxista não tem conteúdo.”

Só que em nenhum momento eu disse que a obra de Marx não tem conteúdo. Ainda não fiz uma leitura sistemática dele pra poder afirmar isso. Tampouco estarei habilitado a fazê-lo, assistindo 2 ou 3 vídeos no youtube. O que eu disse, ou quis dizer é que a academia tem a mania irritante de desprezar uma obra pela simples fato de a mesma não ser de uso corrente pela maioria. Oras, sabemos que uma das regras de ouro do bem pensar é aquela baseada na análise da idéia em si. Por isso, quando vejo alguém usando a falácia de que “fulano não é confiável porque a maioria não acredita nele”, sempre fico com o pé (esquerdo) atrás.

O senhor diz: “A centralidade adquirida pelo conteúdo crítico do marxismo explica o grande número de historiadores marxistas que tornaram-se, pelo conteúdo crítico dos respectivos trabalhos, pela qualidade da pesquisa documental, a densidade teórica e rigor de método, referências básicas nas bibliografias de cursos no campo das ciências humanas.”

Professor, uma idéia não ganha hegemonia pura e simplesmente por seu conteúdo crítico. São necessários agentes socializadores, com a ajuda de uma estrutura toda planejada que envolve imprensa, mídia, artes, e, é claro, a educação. A história está repleta de exemplos. Quanto ao rigor e ao método, o mesmo pode ser encontrado em trabalhos com outras abordagens filosóficas, políticas econômicas e sociais. Apenas não ganham espaço por que a maioria não os aceita (mas avaliar as idéias em si, necas!)

O senhor diz: “que grande número de professores de história são simpatizantes ou militantes de esquerda? Seria porque são oriundos das classes sociais desprovidas dos meios de produção? Porque tiverem a oportunidade de estudar e se identificaram por terem referências diárias das contradições estruturais do capital? Seria por sentem a exploração do capital na pele?”

Ou será que foi porque foram doutrinados desde a tenra infância a engolir o que outros mestres com o “pezinho lá” lhes tem dito e somente leram este ou aquele tipo de leitura sem buscar opiniões diferentes? 

O senhor diz: “Posso compreender que Eike Batista se identifique com Olavo de Carvalho, já sua admiração por ele se apresenta a mim como um desafio sociológico, antropológico ou ainda, psicológico. Estou tentando compreender, com todo o respeito.”

Mas professor... Não preciso ter a grana do Eike Batista pra ter apreço aos valores familiares, à moral cristã e à educação de qualidade, acreditando ser isso a base para uma sociedade mais sadia. Aliás, também sou contra este capitalismo desvirtuado que impera em nossos dias. Contudo, combater esses excessos colocando tudo a serviço do Estado não da certo. E não da certo porque quando colocamos tudo na mão do Estado, estamos, na verdade colocando tudo na mão de um pessoal que não vai mais querer largar o osso. União Soviética, China e Cuba não me deixam mentir. A vida comunitária da certo sim, em pequenas sociedades como eram os essênios ou as primeiras comunidades cristãs. Porém, em sociedades maiores, isso sempre acaba dando errado. 

O senhor diz: “já sua admiração por ele se apresenta a mim como um desafio sociológico, antropológico ou ainda, psicológico. Estou tentando compreender, com todo o respeito.”

Assim como também estou tentando compreender a mentalidade psicopata que mata milhões de pessoas em prol do ideal comunista.

O senhor diz: “Um Olavo no vídeo, outro no texto: isso me parece inconsistente. O do vídeo já me faz perder a vontade de ler o do texto. Talvez no texto a retórica seja um pouco mais rebuscada... mas é realmente apenas uma suspeita... não li.”

Então leia para ter mais do que uma suspeita, professor. Desqualificar a obra inteira de uma vida, assistindo meia dúzia de vídeos do youtube, convenhamos que é complicado...

O senhor diz: “Currículo conservador. Ok. É um ótimo currículo conservador... e que mais? Quanto ao conteúdo, que tese dele pautou o debate acadêmico contemporâneo? Há alguma interpretação instigante dele sobre o Brasil que tenha merecido atenção no debate acadêmico mais amplo? Afirmar que a academia é burra não serve.”

Estão todas expostas em sua obra, que o senhor ainda não leu.

O senhor diz: “Sobre a retomada do "sim" de Hobsbawm, não será necessário reescrever meu primeiro post.”

E nem vou repetir os meus outros também. Só retomei para complementar a ideia e também pra tentar desmistificar aquela coisa de que "Marx foi mal compreendido". Muito pelo contrário. Ele foi muito bem compreendido.

O senhor diz: “Discutir o capitalismo com Olavo de Carvalho? Aceito o convite de tomar a cerveja no bar com você...”
Que nada! Ainda tenho que comer muito feijão com arroz para estar ao nível. Mas cerveja a gente vê...



PROFESSOR: Você que leu, poderia me adiantar alguma interpretação instigante de Olavo de Carvalho?
Quanto ao marxismo, não tratei dele aqui como um "fenômeno social", sempre estive me referindo à tradição acadêmica, ou seja, a utilização dos pressupostos teóricos-metodológicos para a compreensão e crítica "radical" (que vai à raiz) do capitalismo.
Quanto à questão do papel do Estado no desenvolvimento do capitalismo, tenho uma indicação para que você tenha elementos para descartar Von Mises e todos os demais ideólogos do liberalismo e neoliberalismo, segue referência: FIORI, José Luís (org.). Estados e moedas no desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes, 1999.
É bastante possível que muitos professores de História realmente não tenham um conhecimento aprofundado de Marx, marxismo ou outras correntes teórico-metodológicas das ciências humanas e sociais. Isto é fato notório. Creio que isto, inclusive, é que favorece a "doutrinação" de muitos deles, de um lado, por um marxismo vulgar praticado nos movimentos sociais e partidos políticos, seja pela doutrinação ainda mais rasteira dos ideólogos adeptos do anticomunismo. Contudo, uma pré-disposição dos professores de História a situarem-se no campo político à esquerda, ainda que não por convicções de base científica, parece-me plenamente compreensível pelo motivos expostos acima. Já o filho do Eike Batista, ou ele próprio à esquerda, seria um desafio sociológico, antropológico, psicológico....


ELVIS: “Você que leu, poderia me adiantar alguma interpretação instigante de Olavo de Carvalho?”

Ora, professor! Sabemos que Olavo de Carvalho foi execrado do meio acadêmico. Óbvio que não irão se encontrar “interpretações instigantes” de sua obra, nem de Luiz Filipe Pondé, nem de nem de Edmund Burke, nem de Russel Kirk. Mas devo insistir: o fato de sua obra não receber destaque no meio acadêmico não desqualifica a mesma, pois pra isso seria preciso uma leitura sistemática de seus livros, artigo e apostilas, oque ninguém se propôs a fazer, pois é mais fácil rotula-lo de fascista e velho gagá, do que parar por minuto de consumir textos marxistas para fazer uma análise séria. E eu sei o porquê em 2003, Olavo de Carvalho debateu na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, com Alaor Caffé, e foi um massacre! Alaor Caffé abandonou o debate totalmente derrotado. Agora, pra evitar outro vexame, é mais fácil os acadêmicos se esconderem atrás do deboche e do gracejo. Alexandre Dugin, defensor do stalinismo e mentor do Putin, também foi devastado pelo Olavo. E olha que o Dugin é um intelectual de primeira linha. No livro “O Imbecil Coletivo”, Olavo analisa o quadro intelectual brasileiro, expondo suas contradições e pobreza. Uma de suas teses é aquela onde argumenta que todo o comportamento aberrante da sociedade nasce das elites e vai se espalhando para o restante da população, e para demonstrar, fornece inúmeros exemplos. Não é um livro para ser estudado pelos “pudicos” aprendizes de nossas universidades. Muito mais fácil é rotular toda a obra como “sem credenciais acadêmicas”, assim ninguém precisa se fadigar tendo que refutar uma só linha do que ali está escrito. 

“Quanto ao marxismo, não tratei dele aqui como um "fenômeno social", sempre estive me referindo à tradição acadêmica, ou seja, a utilização dos pressupostos teóricos-metodológicos para a compreensão e crítica "radical" (que vai à raiz) do capitalismo.” 

Eu sei professor. Por isso destaquei a diferença entre estudar o “fenômeno do marxismo” e estudar a história sob o viés marxista, que é o que a gente está aprendendo a fazer no curso de história. Imprescindível saber isso, óbvio, mas não em detrimento de outras leituras, pois assim, nossa visão da história ficará limitada. Ademais, existe critica ao capitalismo no próprio pensamento conservador como aquela feita por José Nivaldo Cordeiro, no link que postei, feita com sobriedade, rigor e método, ainda que não tão radical como gostariam os marxistas e não recebendo, por isso, tanto destaque por aqueles mesmos professores que nós estávamos debatendo.

"Quanto à questão do papel do Estado no desenvolvimento do capitalismo, tenho uma indicação para que você tenha elementos para descartar Von Mises e todos os demais ideólogos do liberalismo e neoliberalismo, segue referência: FIORI, José Luís (org.). Estados e moedas no desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes, 1999."

Vou ler a indicação pra depois comentar. 

"É bastante possível que muitos professores de História realmente não tenham um conhecimento aprofundado de Marx, marxismo ou outras correntes teórico-metodológicas das ciências humanas e sociais. Isto é fato notório. Creio que isto, inclusive, é que favorece a "doutrinação" de muitos deles, de um lado, por um marxismo vulgar praticado nos movimentos sociais e partidos políticos, seja pela doutrinação ainda mais rasteira dos ideólogos adeptos do anticomunismo" 

Stalin praticou o marxismo vulgar ou o científico, professor? Trotsky disse que ele não havia entendido Marx. Em contra partida Stalin disse ao tomar o poder que quem não entendeu Marx fora Trotsky. E Stalin matou milhões de pessoas. Depois Mao disse que ninguém havia entendido Marx e Mao matou milhares de pessoas. Afinal quem entendeu Marx, professor? Foi Fidel com seu “paredon”, foi Lamarca, ou os terroristas que explodiram o aeroporto de Guararapes em 68? Chávez? FARC? Ou será que ainda não nasceu uma interpretação correta do marxismo? 

"Contudo, uma pré-disposição dos professores de História a situarem-se no campo político à esquerda, ainda que não por convicções de base científica, parece-me plenamente compreensível pelos motivos expostos acima. Já o filho do Eike Batista, ou ele próprio à esquerda, seria um desafio sociológico, antropológico, psicológico....”

Talvez devêssemos parar de interpretar tudo pelo lado econômico e começar a pensar em outros ângulos, professor.


PROFESSOR: Coloquemos de um lado, Marx, que não foi um acadêmico de gabinete, foi um militante político. De sua obra, desenvolveu-se uma tradição acadêmica nas diversas disciplinas. Noutro campo, pensemos a apropriação da obra marxiana pelos partidos políticos e movimentos sociais. São dinâmicas distintas, que certamente se comunicam, mas devem ser analisados em suas especificidades. Reitero, estive e continuo me referindo apenas à tradição acadêmica, na qual Stalin ou Trotsky não se enquadram. Creio que aqui há também uma questão de reflexão crítica. Respondendo sua questão:Afinal quem entendeu Marx, professor? Para ficarmos no Brasil, há alguns intelectuais acadêmicos que considero bons utilizadores do materialismo histórico-dialético, citaria Caio Prado Junior e Celso Furtado. Particularmente, na Europa, gosto dos marxistas heterodoxos como Antonio Gramsci, Perry Anderson, Hobsbawm, E.P. Thompson , Rosa Luxemburgo, Walter Benjamim, Adorno e Bakhtin. São intelectuais que pautam o debate, cujas contribuições teóricas e empíricas nos dão muitos subsídios para diversas pesquisas que queiramos realizar.
É bem possível que o trabalho de muitos "pretensos intelectuais" se encore apenas nas credenciais acadêmicas. É evidente, entretanto, que um trabalho sem rigor teórico-metodológico não sobreviva à crítica. Há na academia como na política, o "alto e baixo clero". Quanto ao "Imbecil coletivo", cheira a rancor de quem foi "execrado" pela academia. Quanto ao processo de legitimação da produção intelectual, indico os seguintes trabalhos com densidade sociológica de Pierre Bourdieu: A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino, Lisboa: Editorial Vega, 1978; O Poder Simbólico, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1992.As Regras da Arte: gênese e estrutura do campo literário, Lisboa: Presença, 1996;O Que Falar Quer Dizer: a economia das trocas simbólicas, Algés: Difel, 1998; Meditações Pascalianas, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001; A Produção da Crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos, Porto Alegre, Editora Zouk, 2001; Questões de Sociologia, Lisboa: Fim de Século, 2003; Esboço para uma Autoanálise, Lisboa : Edições 70, 2004; Para uma Sociologia da Ciência, Lisboa: Edições 70, 2004 (Trad. de: Science de la science et reflexivité); Os Usos Sociais da Ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Editora UNESP, 2004; Ofício de Sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Petrópolis: Vozes, 2004. (em colaboração com Jean-Claude Chamboredon e Jean-Claude Passeron.)A Distinção: crítica social do julgamento, Porto Alegre, Editora Zouk, 2007. Gosto também de A Ordem do Discurso de Foucault.
Concordo que a interpretação econômica apenas não basta. Tanto que Eike Batista à esquerda seria um desafio transdisciplinar: sociológico, antropológico, psicológico...como afirmei antes.


ELVIS:   Aqui chegamos a um ponto interessante do debate, professor. O senhor diz: “São dinâmicas distintas, que certamente se comunicam, mas devem ser analisados em suas especificidades”, me perguntei: "e onde elas se comunicam?" E lembrei-me que, nas instantes das livrarias, 90% senão mais, dos livros de História nas prateleiras são de viés marxista. São livros que não enxergam a História como uma ciência descritiva e explicativa. No marxismo, a história é uma arma. Isso é afirmado, claro que não com essas palavras, por vários autores dessa linha, onde passado deixa de ser o que ele é para passa ser aquilo o que convém. Essa visão, é que é transmitida para os livros e materiais didáticos e transformam a escolas em fabricas de militantes marxistas ou filomarxista.

Mas isso é apenas a minha opinião. E pra chegar até a ela, li, além dos textos dos autores tradicionais, coisas de TS Eliot, Von Mises, Russel Kirk, Irvin Kristol e é claro, o “execrável” Olavo de Carvalho. Assim, pude avaliar e escolher a posição que me fez mais sentido. Isso não é democracia? Como poderei exercê-la sendo bombardeado de textos, livros, artigos e análises marxistas, cujo objetivo é me transformar em um adepto da causa? Qual a probabilidade, professor de uma pessoa se tornar marxista ou filomarxista lendo somente a literatura que o senhor me sugeriu? E se estudar as duas visões? 

Claro que eu seria um louco se estivesse sugerindo que não devêssemos ler esses trabalhos. Eu mesmo, quando terminar as obrigações da faculdade, pretendo mergulhar de cabeça nesses textos, começando pelo próprio Marx. Agradeço pela sugestão das leituras. Já copiei e salvei em um arquivo separado.

Compreendo que muitos desses autores são muito competentes, como o próprio Hobsbawm. Outros são grandes intelectuais, mas não da pra esconder o fato de que a história praticada e reproduzida por eles é sim para doutrinação. O fim último é a causa da Revolução. Não se estuda a História para compreender o mundo, mas para mudá-lo. E as maiores catástrofes da humanidade foram praticadas por pessoas que queriam mudar o mundo.

“Concordo que a interpretação econômica apenas não basta. Tanto que Eike Batista à esquerda seria um desafio transdisciplinar: sociológico, antropológico, psicológico... como afirmei antes.”

Não existe desafio algum, professor. Um conservador é aquele que prima pelos valores religiosos e familiares. Isso se reflete, ou deveria se refletir em todos os aspectos da vida da pessoa, definindo suas crenças filosóficas, políticas, econômicas...

Um texto muito bom sobre isso é o de Rousas J. Rushdoony, “Cristianismo e Capitalismo”, que o senhor pode encontrar aquihttp://monergismo.com/wp-content/uploads/cristianismo-capitalismo-rush-livreto.pdf

Talvez o senhor argumente que esse não é um autor aceito na academia. Tendo exercido influência sobre a Direita Cristã, não poderia ser diferente, com nossos mestres e doutores Esquerdistas-Ateus. Contudo, só isso é pouco pra dizer que as ideias de Rushdoony estavam erradas.



OBS: Depois deste debate, postei uma mensagem que reflete minha opinião sobre o ativismo gay. O professor me excluiu do facebook, me acusando de homofobia e dizendo que não queria reacionários em sua rede social.