segunda-feira, 19 de novembro de 2018

REFORMA PROTESTANTE: BENEFÍCIOS E MALEFÍCIOS PARA A EDUCAÇÃO NA REVOLUÇÃO DE LUTERO


Resumo


Antes mesmo de Teodósio I, imperador de Roma, instituir o cristianismo religião oficial do Império Romano em 380 por meio do Édito de Tessalônica, não eram desconhecidas comunidades de cristãos que não se identificavam com a religião organizada. Eram cátaros, valdenses, albigenses e anabatistas que no decorrer da história, por não partilharem das mesmas crenças da religião institucionalizada pelo Estado, receberam o título de hereges. A palavra “heresia”, deriva do latim “haeresis”, que, por sua vez se origina do grego “haíresis” que significa “Capacidade de escolher”. A Reforma Protestante do século XVI, também considerada na época um movimento herege, não se compara em termos de influência aos primeiros dissidentes. Seu alcance foi muito maior, abarcando além da religião, a economia, a filosofia, a política e a educação. Este trabalho terá como foco as influências da Reforma na Educação que foram introduzidas por Martinho Lutero, um dos seus principais personagens. Ao ser excomungado em 1521, através da bula papal Decet romanum pontificem, Lutero liderou um movimento de reforma do cristianismo, no qual a Educação possuía uma importância central, visto o destaque que a leitura e interpretação da Bíblia possuía para os reformistas. Mostraremos, ainda, como tais modificações nas práticas educativas promovidas por Lutero trouxeram à existência uma cultura alemã. Por fim, identificaremos os elementos educacionais luteranos que ainda hoje persistem na educação moderna.   
Palavras chaves: Reforma Protestante, Martinho Lutero, Educação, Cristianismo.












ABSTRACT
Even before Theodosius I, emperor of Rome, instituted the Christianity official religion of the Roman Empire in 380 by the Edict of Thessalonica, were not unknown community of Christians who did not identify with organized religion. They were Cathars, Waldensians, Albigenses, and Anabaptists who, in the course of history, for not sharing the same beliefs of religion institutionalized by the State, were given the title of heretics. The word "heresy" derives from the Latin "haeresis", which in turn originates from the Greek "haíresis" which means "Ability to choose". The Protestant Reformation of the sixteenth century, also considered at the time a heretical movement, does not compare in terms of influence to the first dissidents. Its scope was far greater, encompassing religion, economics, philosophy, politics, and education. This work will focus on the influences of the Reform in Education that were introduced by Martin Luther, one of its main characters. When he was excommunicated in 1521, through the papal bull Decet romanum pontificem, Luther led a movement of reform of Christianity, in which Education had a central importance, given the prominence that the reading and interpretation of the Bible had for reformers. We will also show how such changes in the educational practices promoted by Luther brought to the existence a German culture. Finally, we will identify the Lutheran educational elements that still persist in modern education today.
Keywords: Protestant Reformation, Martin Luther, Education, Christianity.








Introdução


As profundas mudanças de ordem social, econômica, política e religiosa que ocorreram na Europa do século XVI e que se convencionou chamar de Reforma Protestante, foi a culminância de diversos acontecimentos históricos (MATOS, 2016).
O Sistema Feudal que predominou na Europa desde o século V, sofreria enormes modificações a partir do século XIV:  aumento da população que impossibilitava o trabalho agrícola forçando a saída dos camponeses que se mudavam para as cidades, guerras, pestes, chuvas torrenciais que prejudicavam as colheitas, rebeliões camponesas como as jaquerries na França que empobreciam cada vez mais os nobres.
Em contrapartida, uma vez desfrutando das comodidades da vida nos burgos,[1] ex-camponeses convertidos em sapateiros, ferreiros, alfaiates, carpinteiros, feirantes e banqueiros, acumulavam poder econômico transformando-se numa nova classe social.
Os burgueses possuíam poder econômico, mas lhes faltavam o político, o que dificultava suas atividades. Os nobres tinham terras desvalorizadas e poder político, necessitavam, porém, do dinheiro burguês para sobreviver.
Do mutualismo nobre-burguês surgiu uma das mais fascinantes criações humanas: as nações.
Cidades que floresciam, costumes que se modificavam, o estilo de vida burguês logo tomou conta da Europa. Novas prioridades, um novo foco. O Renascimento deslocara a atenção dos homens, de Deus para os próprios homens. Já os humanistas acreditavam na evolução do ser humano por meio da razão[2], do conhecimento. Fundaram universidades onde as pessoas podiam mergulhar no mundo da filosofia, da matemática e diversos outros assuntos.
Mas ao próspero burguês, contudo, faltava ainda algo: o apoio ideológico.
Para a maior representante do cristianismo daquele tempo, Igreja Católica, o lucro, os juros a acumulação de bens, era usura[3], o que estava totalmente na contramão dos desejos daqueles bem-sucedidos comerciantes.  Aos nobres, incomodava um clero que interferia na política enquanto acumulava cada vez mais poder. Por fim, os abusos e desvios cometidos por alguns representantes da igreja estimulavam as críticas dos que exigiam uma renovação de ordem religiosa. Um dos primeiros a realizar tais críticas foi o teólogo inglês John Wycliff (KNIGHT, ANGLIN, 1983). John Huss foi outro reformador antes da Reforma, que por suas críticas à corrupção e ao luxo dos clérigos foi martirizado em 1415.
Quando o alemão Martinho Lutero afixou suas 95 teses na igreja do Castelo de Wittenberg no dia 31 de outubro de 1515 dando início a Reforma Protestante, os burgueses que ansiavam por amparo ideológico não deixaram de perceber a oportunidade que ali nascia. Oportunidade que criou raízes não muito tempo depois, por meio do desenvolvimento da moral econômica calvinista.

Para Lutero a reforma da religião estava estritamente ligada à reforma da educação:

Lutero reformou a religião e participou do início da organização da educação moderna pública. As duas preocupações de Lutero, celebrar a missa no idioma do cristão e a possibilidade dele ler a bíblia, acabaram, no mínimo por democratizar o ensino que ao longo de toda a Antiguidade e Idade Média, sempre esteve restrito a pequenos grupos representantes de classes sociais mais privilegiadas pela sociedade.  (VARELA, 2014, pg.238)

Tal preocupação resultou numa verdadeira revolução na Educação, ajudando a moldar o que conhecemos como cultua alemã nos dias atuais. Além disso, certos elementos contidos nas propostas educativas de Martinho Lutero se fazem presentes em épocas contemporâneas e em várias partes do mundo inclusive no Brasil.
Nas próximas linhas tentaremos compreender a profundidade de tais modificações introduzidas por Lutero e suas influencias que se fazem sentir no mundo atual.



  

Capítulo 1: Martinho Lutero

 

Nascido em Eisleben, Saxônia, no ano de 1483. Quando completou a idade adequada ingressou na Universidade de Erfurt (FEBVRE, 2012). Por influência de um ancião agostiniano passou a rever suas crenças a respeito da salvação e da remissão dos pecados.
Em 1508 transfere-se para a universidade de um certo Staupitius, a pedido do próprio, onde continua a dedicar-se aos estudos teológicos dentre outras atividades. Tinha, então, vinte e seis anos de idade. Três anos mais tarde recebe o título de doutor.
Em 1516 com o intuito de financiar as cruzadas, o Papa Leão X inicia a distribuição de perdão, arrecadando riquezas. Inúmeros encarregados pela coleta se espalham pela Europa, oferecendo a libertação de almas do purgatório por 10 xelins. Tetzel, frade dominicano, é o mais impetuoso dos coletores. Seus sermões considerados blasfemos[4] ascendem a indignação de Martinho Lutero, que em represália escreve 95 críticas à Igreja, afixando-as no dia seguinte à porta do templo adjacente ao castelo de Wittenberg. Era o dia 31 de outubro de 1517.
Intimado a dar explicações de sua conduta, foi a Roma. Após várias audiências com autoridades da Igreja, por sua obstinação e recusa em se retratar foi excomungado da Igreja Católica junto com seus seguidores, doravante chamados luteranos, por meio da bula Decet romanum pontificem de 1521. Perseguido e obrigado a viver as escondidas somente não foi preso e executado devido a proteção do nobre Duque Frederico.
Protegido, trabalhava na tradução da Bíblia para o alemão, obra marcante para a nação e para a literatura alemã (CARPEAUX, 1963) bem como em diversos outros livros onde defendia ideias como o fim da pobreza e mendicância voluntária dos sacerdotes, que os casos de heresia deveriam ser julgados por meio de provas nas Escrituras e que as crianças deveriam ser alfabetizadas por meio do Evangelho.
Em 1546, estando escondido e protegido por alguns príncipes da Saxônia, Lutero já estava escrevendo e fazendo sermões há vinte e nove anos, tendo falecido neste mesmo ano em Eisleben.
Para o historiador Otto Maria Carpeaux (1963), Lutero foi a personalidade mais influente da literatura alemã, maior ainda que Goethe. Foi um patriota alemão, embora não tenha sido um nacionalista já que o conceito de nacionalismo ainda não existia nas mentes medievais. Foi o primeiro homem moderno cujo o espírito foi formado com a leitura da Bíblia e de Santo Tomás de Aquino. Foi também um dos grandes gênios religiosos da humanidade, que não deixou de transparecer os aspectos mais humanos:

Não foi um anjo da luz. Foi, como se disse na Alemanha do seu tempo, um Grobianus, homem grosseiro, lançando palavrões incríveis com a mesma paixão que dedicava à boa música e com que combateu cruelmente os pobres camponeses revoltados. Foi um grande alemão, quase santo e quase demoníaco.  (CARPEAOUX, 1963, pg. 20)


Em várias de suas obras demonstrou além do domínio perfeito do alemão, uma extraordinária capacidade jornalística. Também foi o maior tradutor de todos os tempos: em seus trabalhos de tradução do Antigo e do Novo Testamento, criou expressões e locuções bastante utilizadas no alemão moderno.
As ideias de Lutero sobre educação podem ser encontradas em diversos de seus livros (BARBOSA, 2011), cuja análise revela a existência tanto a organização do sistema de ensino, como a discussão de princípios específicos para a educação.
Além disso foi o primeiro a romper com a tradição e sugerir uma educação de responsabilidade do Estado ao invés da Igreja. Como veremos nas próximas linhas, essa abordagem desencadeará consequências positivas bem como negativas.
Antes, porém, com o objetivo de construir uma imagem mais clara das transformações promovidas por Lutero na Educação, será útil uma abordagem sobre a educação na Idade Média.



A Educação na Idade Média


O período de mil anos conhecido como Idade Média, se inicia com a queda de Roma no século V e termina no século XV com a queda do Império Romano do Oriente. (SCHNEIDER, 2007)
No imenso território outrora ocupado pelo Império Romano, depois ocupado por povos visigodos, ostrogodos, burgúndios, lombardos e francos, somente uma instituição romana resistiu, graças principalmente a habilidade dos clérigos de fazer acordos e alianças com os líderes invasores. O fato mais expressivo neste sentido, foi a conversão e o batismo do rei franco Clóvis em 508 d.C. Tal aliança alicerçou a influência da Igreja Católica na Europa que passou a ter grande domínio na sociedade, inclusive na educação.
A Educação medieval se caracteriza pelo controle da Igreja e pelo predomino das temáticas religiosas. O objetivo da prática educativa neste período é a defesa da fé cristã e a conversão dos não-cristãos. Todo o esforço era no sentido de unir a fé com a razão e a sua prática era limitada às igrejas e aos monastérios.
A Educação do período medieval pode ser dividido em duas tendências (SCHNEIDER, 2007): a Educação patrística que consistia na exposição racional da fé religiosa a Escolástica que pretendia explicar o cristianismo por meio da especulação filosófica.
 Desenvolvida pelos padres da Igreja, a educação patrística remonta ao período que antecede a queda do Império Romano e se preocupa principalmente com as relações existentes entre a fé a ciência. Por meio da filosofia platônica, visava desenvolver uma ética moral rigorosa e o controle racional das paixões. Seus principais representantes são Orígenes, Clemente de Alexandria e Tertuliano. Merece ainda, especial destaque os trabalhos de Agostinho de Hipona.

 A escolástica é fruto direto do Renascimento Carolíngio[5] (SCHNEIDER, 2007), uma vez que Carlos Magno fundou as escolas monacais numa tentativa de renovar a cultura de seu reino. Ainda era uma educação restrita aos monastérios e as igrejas, destinada a uma única parcela da população.
Era característica da educação escolástica a especulação filosófica-religiosa. Tomás de Aquino, o maior expoente deste tipo de educação, acreditava na existência de crenças que podiam ser provadas pela razão e também em crenças cuja falsidade ou não, não podiam ser provadas. Para Aquino não havia contradição entre a razão e a palavra revelada, sendo que quanto mais racional fosse a pessoa, mais cristã ela seria.
Ao longo do século XVI a educação escolástica começa a se tornar mais restrita, sofrendo um processo de dogmatização. O princípio da autoridade se torna o valor dominante e qualquer conceito que não estivesse de acordo à regra do magister dixit.[6]
Quando Martinho Lutero com suas 95 teses desencadeou o processo que chamamos de Reforma Protestante, esta era a configuração no campo da Educação.
Para os reformadores não bastava a mudança espiritual dos fiéis, pois buscavam também uma “base cultural sólida” (VALENTIN, 2010), que pressupunha uma mudança no sistema educacional medieval.
A seguir veremos as propostas de Lutero para a reformulação da educação.

  

Capítulo 2: Lutero e a Educação


Para além da reforma religiosa, as maiores preocupações de Lutero foram a possibilidade de os alemães lerem a Bíblia e assistir as missas, que eram ministradas em latim, no seu próprio idioma. Assim começaram os trabalhos para organizar a educação pública. (VARELA, 2014)
A maior característica desta nova prática educativa é a democratização, uma vez que a educação perpetrada na Idade Média era limitada aos mosteiros, monastérios e igrejas, bem como destinadas à pequenos grupos sociais mais distintos.
Outra grande característica do ensino proposto por Lutero é a ideia de que o Estado, e não a Igreja, fosse a responsável pelo oferecimento da Educação ao povo, lançando as bases do que depois se tornou o conceito do laicismo dois séculos antes da Revolução Francesa.
Em diversas oportunidades Lutero se posicionou a favor da educação enquanto um direito de todos:
 [...] na Carta aos conselheiros comunais de todas as cidades da Alemanha (1524); no Sermão sobre a necessidade de mandar os filhos à escola (1530), além de outros escritos de caráter religioso como o Grande e pequeno catecismo (1529).  (VARELA, 2014, pg. 239)

Ainda sobre os princípios educacionais de Lutero, o dever das autoridades municipais de criar e manter instituições de ensino parte do princípio de que a aprendizagem estritamente ligada a religião, iniciaria com a alfabetização/letramento por meio da Bíblia.
A base da educação proposta por Lutero eram as línguas: grego e hebraico, para possibilitar a compreensão adequada das Escrituras, e o alemão. A literatura cristã e pagã também era estudada, além das artes (música, pintura, escultura) e medicina.
Varela (2014) ainda destaca as considerações de Lutero a respeito dos professores, que deveriam possuir o perfeito equilíbrio entre severidade e amor.
Não deve ser olvidado os colaboradores de Lutero, dentre os quais, é lícito citar Valentin Trotzerdorf, criador do princípio da autonomia escolar.
Johannes Bugenhagen, além de ser considerado o fundador da escola secundária, é também criador da escola primária (VARELA, 2014)
Tendo suplantado a barreira da Alemanha, a Reforma Protestante atingiu mentes e formas distintas. Na França, na Suíça, na Bélgica e partes da Inglaterra houve influência de João Calvino. Na Inglaterra de Henrique VIII, o mesmo anglicanismo que reformou a religião criou inúmeros colégios para o ensino dos burgueses e cavaleiros pobres.
Democratização e liberdade foram as maiores conquistas da Reforma Protestante para a Educação. Todavia é necessário observar que o movimento de Lutero também criou precedentes não tão positivos, conforme mostraremos a seguir.

Aspectos negativos da Reforma Protestante


Se existe uma palavra que pode resumir a reforma proposta por Lutero esta palavra é “liberdade”. (JUSVIACK, WESTPHAL, 2016), pois sendo a natureza do ser humano pecaminosa, não há nada que ele possa fazer para alcançar a salvação. A salvação, pois, é uma graça exclusiva concedida por Deus mediante o sacrifício de Jesus Cristo. Não faz o menor sentido a Igreja se posicionar como mediadora entre o ser humano e Deus, visto que nada do que ela pode fazer é efetivo em termos de salvação. Seguindo este raciocínio Lutero conclui que a única função da Igreja é orientar os fiéis por meio das Escrituras, pois só nelas é que se pode encontrar a Verdade, podendo neste ponto abarcarmos a importância da educação para melhor compreendê-la. Sendo a Igreja apenas aquela que mostra o caminho, o cristão tem a possibilidade de exercer o livre arbítrio para alcançar o favor imerecido de Deus.



Se o cristão, pois, é livre em suas decisões espirituais, quanto mais nas temporais, como pontua  Jusviack e Westphal (2016, pg. 102) :

Lutero também rejeitava a pretensão do clero de exercer jurisdição sobre os assuntos temporais. O entendimento era de que a Igreja não possui nenhuma jurisdição, seja espiritual ou temporal. Sendo ambos os reinos regidos por Cristo, no reino espiritual cabe aos papas e bispos apenas ensinar a palavra d’Ele, ao passo que no reino terreno cabe às autoridades seculares governar os assuntos temporais, inclusive com poderes coercitivos.


Para Lutero era mister que o bom cristão fosse obediente à autoridade secular conforme orientado nas Escrituras[7]. Por conseguinte, às autoridades seculares são atribuídos papéis preponderantes:
A autoridade secular é instituída para ser uma tranca contra as forças do mal e deve ter a função de promover o bem para que a vida seja garantida, como a família, a economia, a educação, a política, ou seja, o estado secular, que não é determinado pelo âmbito religioso, tem a função de garantir o convívio social em todos os seus aspectos (JUSVIACK, WESTPHAL, 2016, pg.96)

Na Reforma Protestante, está, pois, a origem da separação entre Igreja e Estado.
Propagando-se pela Europa, o desenvolvimento de tais ideias criou reflexos na educação, agora submetida ao Estado ao invés da Igreja. Estado, que cada vez mais opressivo encontrou na educação uma eficiente máquina de propagação de ideias cujo objetivo máximo era manter o status quo.
Pode-se afirmar diante do que foi exposto, que na revolução de Lutero era central o papel da educação, e primordial a tarefa das escolas. Veremos, agora, quais elementos desta educação vigoram nos dias atuais.  



O legado da Reforma para a educação dos dias atuais


Na prática educativa da atualidade é possível identificar alguns elementos oriundos da Reforma Protestante: a noção da educação como responsabilidade do Estado, da escola pública enquanto uma instituição laica e de uma escola que ensina o dia-a-dia e não apenas abstrações intelectuais (Ramiro, 2012)
Lutero também acreditava, no tocante à educação infantil, que os conceitos poderiam ser melhor assimilados se a criança aprendesse brincando. “Aprender brincando” é algo amplamente praticado na pedagogia atual.
Em um de seus escritos, Lutero revela que considerava as escolas medievais verdadeiros purgatórios, onde os alunos eram “torturados” por meio de conjugações e declinações. Propunha, pois, que as línguas fossem ensinadas por meio de brincadeiras. Atualmente, o uso de jogos e brincadeiras faz parte da metodologia no ensino de línguas.
As mudanças introduzidas por Lutero atingem até mesmo a estrutura organizacional da educação:
Lutero não somente atinge a Igreja Católica com suas críticas, mas influencia a educação quando produz uma reestruturação no sistema de ensino alemão, inaugurando uma escola moderna. A ideia da escola pública e para todos, organizada em três grandes ciclos (fundamental, médio e superior) e voltada para o saber útil nasce do projeto educacional de Lutero. (FERRARI, 2005, p. 30-32)

Nota-se, que quinhentos anos depois da Reforma, a educação moderna ainda carrega sua influência nos genes.








Conclusão


A Reforma Protestante ocorrida na Europa do século XVI desencadeou mudanças estruturais profundas não apenas na religião, mas também na sociedade, na política, na economia e na educação.
Para atingir a mudança proposta pelos reformadores o campo educacional era essencial, tendo em vista a necessidade de o cristão ler e entender a Bíblia corretamente. Diante deste fato Martinho Lutero, o principal agente da reforma na Alemanha, propõe uma série de mudanças que rompem com a pratica educativa que foi característica durante toda a Idade Média.
Foram notórias as contribuições de Martinho Lutero para a educação: para além da religião, o reformador alemão é considerado o criador de toda uma cultura que começa com o desenvolvimento de um idioma e culmina em uma tradição literária alemã. Basicamente, o idioma falado da Alemanha de hoje é o alemão de Lutero. As mudanças introduzidas por Lutero na educação de sua época trouxeram à tona a democratização do ensino, a escola laica e o aprimoramento no ensino de idiomas, com metodologias cujos resquícios ainda podem ser observados nas escolas modernas. É dos seguidores de Lutero o conceito de educação infantil e de liberdade escolar.
Por outro lado, essas alterações tornaram possível o fortalecimento do Estado que aumentando o seu controle sobre a população deu origem aos primeiros focos de tirania, transformando a escola numa ferramenta de manutenção do poder estatal.
Sobre as características pessoais do reformador, a historiografia de que dispomos nos fornece um painel que vai de alto a baixo dependendo das convicções do pesquisador: para uns Lutero foi um degenerado, um traidor, o estereótipo do anticristo senão o próprio. Para outros foi um santo, um homem repleto de virtudes divinas.
Virtus in medium est.  O historiador Otto Maria Carpeaux, mostrou quem era Lutero neste mar de opiniões tão divergentes: um ser humano notável, que fez coisas terríveis e também maravilhosas, como somente seres humanos são capazes de fazer.
A pesquisa sobre os efeitos da Reforma Protestante sobre a educação é necessária, na medida em que promove uma reflexão sobre o papel da educação na sociedade, o papel do Estado e os valores que a escola deve transmitir para os alunos. Ademais, cabe aqui, também, propor uma reflexão sobre a participação da família neste processo, visto que ela, a família, é a base de todas as transformações que ocorrem na sociedade.

BIBLIOGRAFIA


BARBOSA, Luciane Muniz Ribeiro. Estado e Educação em Martinho Lutero: A origem do direito à Educação.  São Paulo: USP, 2011
CARPEOUX, Otto Maria. A história concisa da literatura alemã. São Paulo: Faro Editorial, 1963
FEBVRE, Lucien. Martinho Lutero, um destino. São Paulo: Três Estrelas, 2012
FERRARI, M. Erasmo de Roterdã, o pedagogo humanista. Nova Escola, São Paulo, n. 184, ago. 2005, disponível no site: http%3A%2F%2Frevistaescola.abril.com.br%2Fedicoes%2F0184%2Faberto%2Fmt_84862.shtml>, acessado no dia: 08/12/2017
JUSVIACK, Patrícia, WESTPHAL, Euler Renato. O Estado Moderno e a Reforma Protestante a partir da Interpretação de Quentin Skinner.  Santa Catarina: Revista Teológica Internacional, 2016
KNIGHT, A. E, ANGLIN, W. História do cristianismo. Rio de Janeiro: CPAD, 1983.
MATOS, Alderi Souza de. A Reforma Protestante Do Século XVI. Campinas: SPC, 2016
RAMIRO, Marcelo. A Reforma Protestante e sua contribuição para a educação moderna. São Paulo: UMSP, 2012, disponível no site: http://portal.metodista.br/fateo/noticias/a-reforma-protestante-e-sua-contribuicao-para-a-educacao-moderna, acessado no dia 07/12/17
SCHNEIDER, Cátia Regina de Oliveira. A Educação na Idade Média. Santa Catarina: UNIASSELVI, 2007
VARELA, Simone. Contribuições de Martinho à Educação. Aracaju: Interfaces científicas, 2014




[1] Durante a Idade Média o burgo era o lugar mais seguro para se viver, fora das muralhas dos feudos. Normalmente, o burgo era protegido por guarnições militares.
[2] Criou-se a ideia errônea de que a razão só ganhou importância a partir do humanismo, quando, na verdade, a razão já era considera algo de extrema importância desde a época da escolástica.
[3] Durante a Idade Média o pecado da usura era cometido por aqueles que enriqueciam por meio dos juros exorbitantes.
[4] Em suas pregações, Tetzel costumava dizer que a eficácia das indulgências poderia conceder perdão até mesmo a quem procurasse violar a própria mãe de Cristo.
[5] Série de medidas adotadas por Carlos Magno (742-814) no intuito de reformar a vida cultural do povo franco.
[6] Em latim, “O Mestre disse”. Neste caso a racionalidade é abandonada, pois a opinião e a autoridade do mestre sobre o assunto não pode ser questionada.
[7] Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas.
Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos.

Romanos 13:1,2

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

INDISCIPLINA NA SALA DE AULA: UMA ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA

INDISCIPLINA NA SALA DE AULA: UMA ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA

RESUMO
Dos inúmeros problemas que cerceiam a pratica educativa brasileira, aquele que mais aflige os educadores, sem sombra de dúvidas, é a questão da indisciplina. As relações professor-aluno muitas vezes são desencadeadoras de tensões que prejudicam os trabalhos dentro da sala de aula, criam sentimentos negativos e prejudicam o bom desempenho dos alunos. Levando em consideração a importância deste tema este trabalho terá como objetivo a análise das origens e o apontamento de soluções pautadas na psicopedagogia.

Palavras chaves: indisciplina, aluno, escola, psicopedagogia


Dentro do contexto escolar a disciplina é entendida como um conjunto de regras que devem ser seguidas por professores e alunos ALMEIDA (2001, p. 06). É um elemento necessário para o bom andamento para qualquer atividade que possua uma finalidade, um objetivo. Sem ela, os objetivos que foram planejados não poderão ser alcançados.
A indisciplina é um processo onde as regras estabelecidas são quebradas, causando uma desordem, impedindo o bom andamento do trabalho. Na sala de aula a indisciplina é uma manifestação de “rebeldia, intransigência, desacato”, (ALMEIDA, 2001, p. 06). Tal situação gera um clima de tensão, prejudicando os trabalhos e impedindo que o professor cumpra com aquilo que foi planejado para aquela aula.
Os efeitos gerados pela indisciplina em sala de aula na saúde dos professores é notório, segundo Picado (2009, p. 2), gerando mal estar e stress, com os docente cada vez mais preocupados com as difíceis condições de trabalho e muitas vezes temendo pela sua integridade moral e física.



A indisciplina é um dos principais causadores de doenças e síndromes entre os professores:

[...] a falta de reconhecimento, a falta de respeito dos alunos, dos governantes e sociedade em geral, e principalmente a falta de remuneração às horas usadas para correção de provas, trabalhos, etc. geralmente subtraindo uma parte de suas horas livres. Tudo isso pode levar o professor à insatisfação, ao desestímulo e à falta de perspectiva de crescimento.   (LIPP, 2002, p.15)

Além dos problemas relativos ao stress, cabe destacar a síndrome do esgotamento profissional conhecido como Síndrome de Burnout, que se manifesta em sintomas físicos e psicológicos.
Os alunos não estão imunes aos malefícios da indisciplina na sala de aula: a agitação, a agressividade e a carga emocional que o aluno traz consigo de casa são capazes de gerar um “efeito cascata”, que se propaga por toda a sala fazendo cair por terra todo o planejamento que o professor tanto se esmerou para elaborar.
Da mesma forma que para o profissional da educação a indisciplina pode ser motivo de stress, ansiedade e frustração para aqueles alunos que não conseguem assimilar o ensinamento proposto pelo professor.
Quais as causas da indisciplina? Quais são as suas origens? Sem a pretensão de esgotar o assunto, procuraremos elencar alguns elementos geradores da indisciplina na sala de aula, que tanto tem afligido profissionais e alunos e, sem dúvidas, um dos principais motivos pelo qual o Brasil ocupa os últimos lugares nos testes mundiais de educação[1].
É público e notório que a imagem do professor se modificou sobremaneira ao longo dos tempos.  Estas modificações ocorridas na imagem do professor, geradas pelo acúmulo de funções atribuídas a este profissional, contribui para que o aluno desenvolva uma visão diferente do profissional de educação dentro da sala de aula. (PICADO, 2009, p. 02). Atualmente, o profissional de educação não tem o mesmo prestígio que possuía em décadas anteriores. Outrora, ele era a autoridade máxima dentro da sala de aula. Hoje, perdeu o posto para crianças e adolescentes que são os “reis” de sua casa e trazem essa bagagem para a escola.
Ampliando ainda mais a questão, podemos fazer uma reflexão sobre a visão que o aluno faz da escola.  Qual o objetivo dela? Qual a finalidade de seu currículo? O que ele visa alcançar? Se para o aluno a escola é um lugar de desenvolvimento de habilidades para o mercado de trabalho, para que futuramente ele possa ter um bom salário e um bom emprego, então esse aluno poderá a qualquer momento concluir que ele realmente não precisa passar quatro horas de sua vida diária dentro de uma escola. Basta que ele observe três ou quatro exemplo para confirmar a sua tese e teremos um aluno que não conseguirá ver nenhum sentido para a escola. A indisciplina, o desinteresse, a falta de motivação será uma realidade.
Outro elemento gerador de indisciplina tem a ver com a escola como transmissora da cultura da sociedade na qual está inserida:
Ao ingressarem na escola, os alunos entram em contato com a cultura própria dessa instituição, são influenciados por ela e podem influenciá-la também. No caso da indisciplina escolar, parece-nos que ela se manifesta no contexto da transmissão cultural. Os alunos, muitas vezes, resistem à cultura escolar, tentado impedir, não só o trabalho da escola, como o trabalho da cultura em si.         (GOLBA, 2009, p. 4)

 Resistir, pois, à cultura transmitida e representada pela escola pode ser encarada como um ato de indisciplina. Os meios de comunicação podem reforçar o fenômeno ao produzir e reproduzir aquilo que pode ser denominado de “contracultura”.
A mudança de paradigma, a valorização de modelos que glorificam o mal comportamento, os “foras da lei”, são também geradores de indisciplina na sala de aula. Basta uma rápida análise em elementos da cultura pop: filmes, séries, histórias em quadrinhos, entre outros, para constatar a criação de modelos que personificam o fenômeno da contracultura: o aluno aplicado é sempre o “bobão” da turma, o “nerd” esquisito que sempre se dá mal enquanto que o herói, o popular, é sempre o mal aluno, aquele que quebra as regras e destrata o professor, este, que invariavelmente representa o “opressor”.
Albert Bandura observa que a aprendizagem também se dá por meio de modelagens (BANDURA, 1977, p.22) ou seja, aquilo que a criança observa no comportamento dos familiares, aquilo que é observado entre os colegas, aquilo que é absorvido pela TV e outros meios de comunicação serão os modelos a serem copiados futuramente.
Sendo assim, o modelo que inspira um comportamento indisciplinar resultará em indisciplina dentro da sala de aula, o que implica em um esforço conjunto de família, escola e mídia no sentido de sanar o problema.
A problemática da indisciplina na sala de aula exige que, na busca por soluções, as abordagens se realizem a longo e médio prazos.  Abordagens de curto prazo, sem as devidas providências a longo prazo, resultarão em paliativos. Abordagens de longo prazo, sem as devidas providências a curto prazo, resultarão em um estrago ainda maior para a educação nos anos que se seguirão.  
As abordagens de longo prazo são aquelas cujos resultados não poderão ser observados antes de um período de no mínimo vinte anos. Envolve uma mudança na cultura da sociedade. Implica em mudar a forma como a escola é vista. A escola fonte de bons empregos e salários deve deixar de existir e em seu lugar deve surgir a escola formadora de seres humanos. A aquisição de conhecimento deve assumir um papel preponderante. Família, escola, universidades, Estado, igreja, mídia, classe artística e iniciativa privada devem trabalhar conjuntamente para uma mudança completa da cultura nacional. A escola sozinha não muda a sociedade, mas a sociedade como um todo muda a escola.
As abordagens de curto prazo se tratam de medidas que podem ser postas em prática no dia a dia da vida escolar, visando a melhoria das relações professor e aluno.
Dentro do contexto escolar a disciplina é entendida como um conjunto de regras que devem ser respeitadas tanto pelos alunos como pela comunidade escolar (CLEBEA, 2001, p. 6)
Assim sendo, o primeiro passo para um trabalho efetivo dentro da sala de aula é a formulação de regras claras para o ambiente escolar e outro para os trabalhos em sala, a serem definidos pelo professor. Tais regras devem ser respeitadas por todos, sem distinção e as sanções pelo descumprimento das regras deverão ser de aplicação geral e proporcional à infração cometida, sempre regrado pela moderação e o bom senso.
 A participação da família neste processo é essencial. Escola e família devem falar a mesma linguagem, pois somente assim os alunos desenvolverão o senso de limites. Fazer com que a escola e a família falem a mesma língua não é tarefa fácil, uma vez que a muitas destas famílias vivem em um contexto onde a educação, a escola e a aquisição de conhecimentos ocupam um lugar pouco privilegiado em suas vidas. Resolver esta disparidade não é fácil e envolve abordagens de longo prazo, que já explicamos nos parágrafos anteriores.
A família é a base. É aonde tudo começa para a vida do aluno e definirá o comportamento deste, dentro e fora da sala de aula:
A harmonia familiar deve atuar como fator de proteção e segurança necessários ao desenvolvimento confortável da criança, contribuindo para uma melhor adaptação emocional ao meio e favorecendo um desenvolvimento sadio de condutas sociais. (CLEBEA, 2001, p. 07)

Em seu trabalho, “A indisciplina na sala de aula: uma abordagem comportamental e cognitiva”, o professor Paulo Picado, doutor em psicologia da educação, (2009, p. 08) elenca uma série de técnicas que visam o controle da indisciplina dentro da sala de aula.
A extinção é uma técnica que pode ser usada para lidar com o comportamento indisciplinar de pequenas proporções. Trata-se de ignorar o comportamento indisciplinar, o que é entendido pelo aluno como uma reprovação ao mal comportamento. A medida que o professor responde positivamente ao comportamento apropriado, poderá reforçar este e extinguir o outro.
Representações de papéis é outra técnica bastante eficiente, uma vez que coloca os alunos em situações onde podem experimentar o ponto de vista do outro. Trata-se de criar encenações onde os alunos possam representar os papeis do professor, do estudioso e do indisciplinado. Tais encenações tem a capacidade de despertar a consciência dos aluno para o quanto pode ser prejudicial a indisciplina em sala de aula.

A Reunião entre o educador e o aluno (PICADO, 2009, p.09) é umas das técnicas mais apropriadas para lidar com o problema da indisciplina. Consiste numa conversa franca entre professor e aluno, que pode se dar após as aulas, distante dos outros alunos. Esta técnica possui a vantagem de não colocar o aluno da defensiva e possibilita que ele reflita melhor em suas atitudes.
De acordo com Clebea Lima de Almeida, especialista em psicopedagogia institucional, (2001, p. 09), o papel do psicopedagogo não é apenas buscar repostas para o porquê das dificuldades do aluno, mas, por meio da investigação e das indagações, descobrir como aquele aluno aprende e o que ele pode aprender. Assim, ele poderá fazer com que o aluno desenvolva todo o seu potencial.
Desta maneira, com o auxílio de conhecimentos específicos e também os oriundos de várias outras áreas, o psicopedagogo irá investigar as causas da indisciplina e, se necessário, poderá encaminhar o aluno via relatório, para outros profissionais como psicólogos, neurologistas, entre outros. O trabalho do psicopedagogo, desta maneira é um auxílio essencial na resolução do problema da indisciplina, que tanto aflige os profissionais da educação:
O acompanhamento psicopedagógico é importante porque que auxilia no trabalho, atuando diretamente sobre a dificuldade escolar apresentada pela criança, suprindo a defasagem, reforçando o conteúdo, possibilitando condições para que novas aprendizagens ocorram, investindo na questão do não-aprender em algumas crianças. (ALMEIDA, 2001, p.13)










CONCLUSÃO
A indisciplina dentro da sala de aula é considerada pelos profissionais da educação um dos maiores obstáculos a serem superados para que a atividade educativa seja realizada de maneira apropriada. Indisciplina no contexto escolar é entendida como um desrespeito às regras estabelecidas. Tais regras são necessárias para que os trabalhos realizados dentro da sala de aula atinjam os objetivos propostos durante a fase de planejamento. Os motivos que levam os alunos ao desrespeito a essas regras são múltiplos: quebra-se as regras como uma forma de rebeldia à cultura estabelecida, pela forma errada pela qual a escola têm sido encarada na sociedade, a mudança de paradigmas que valorizam o mal comportamento e desprezam a disciplina, o que leva a criação de modelos negativos, o desprestígio da imagem do professor que lhe arrebatou a autoridade, a inserção da família em um contexto social onde a educação não é considerada uma prioridade, entre outros. Para superar tais dificuldades será necessário medidas de longo e curto prazo. Um esforço conjunto de Estado, família, escola, veículos de mídia, classe artista, igrejas, iniciativa privada e todos os demais agentes culturais. O trabalho do psicopedagogo neste contexto é essencial, uma vez que tal profissional detém conhecimentos específicos, sendo capaz de diagnosticar os problemas e para além disso, entender como o aluno se relaciona com o mundo, como fazer ele desenvolver o seu potencial. Esperamos que este trabalho seja útil para elucidar algumas questões a respeito deste problema e para fornecer ferramentas de auxílio para a atividade do dia a dia na sala de aula.









BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, Clebea Lima. Indisciplina na visão psicopedagógica.  Rondônia: FAP, 2001
PICADO, Paulo. A Indisciplina na sala de aula: uma abordagem comportamental e cognitiva. Portugal: ISCE, 2009
LIPP, Marilda (Org.). O stress do professor. Campinas: Papirus, 2002.
GOLBA, Mônica Aparecida de Macedo. Os motivos da indisciplina na escola: a perspectiva dos alunos. Parará: UNIVALE-PR, 2009

BANDURA, A. Teoria da Aprendizagem social. Psychological Review, 1977




[1] http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/brasil-mantem-ultimas-colocacoes-no-pisa/

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O impacto do cristianismo na cultura indígena

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Se existe uma verdade muito mais do que observável na vida, é a verdade de que o mundo não é um local inerte. O mundo observável tal qual uma massa de modelar assumindo várias formas diante das mãos de quem nela trabalha, modifica-se em ritmo, por vezes, alucinante, diante de irresistíveis e não raro, catastróficas forças.

Às sociedades diante destas mudanças, não são meros expectadores, pois, através de seus trabalhos, modificam a natureza de forma a adaptá-la às suas necessidades. Tais mudanças são inevitáveis e, por vezes, acabam afetando outros povos, outras sociedades nos lugares mais distantes.

Os diversos povos indígenas que habitavam as terras onde hoje é o Brasil na época da chegada dos portugueses, também não escaparam a essa força modificadora que a todos abraça. Junto com os sonhos de riqueza e aventura, na bagagem destes europeus também havia o desejo das almas, já que Portugal nesta época tinha plena convicção do seu papel de porta voz do cristianismo.

Ao desembarcarem de suas caravelas naqueles vinte e dois de abril do ano de mil e quinhentos, deram de cara com uma diversidade de povos que habitavam em enormes aldeias, bem maiores do que as existentes no dia de hoje.
Durante aproximadamente trinta e cinco anos, a colonização destas novas terras não fizeram parte das prioridades da coroa portuguesa. Todavia, as constantes ameaças de invasão estrangeira, sobretudo francesas e holandesas, fizeram com que o governo português desenvolvesse um plano de colonização.

Para concretizar tal gigantesca missão muitos obstáculos teriam que ser superados e, o primeiro deles, seria o controle da grande população de indígenas que vivia na região. Talvez a tarefa fosse menos complexa se os portugueses tivessem que lidar com uma massa homogênea de povos. Mas, a realidade que se apresentou a eles, foi a de uma diversidade de línguas e costumes. Assim, o cristianismo significou uma solução ao problema, uma ferramenta ideal para unificar os costumes dos povos e lhes arrefecer o espírito guerreiro.

Para o indígena, o cristianismo se tornou uma forma de sobrevivência, pois ficou claro para esses povos que nada mais seria como antes. Abraçar a cultura dos estrangeiros era uma forma de lutar nos próprios termos dos dominadores. 

A identidade indígena, inexistente até então, surgiu do contato com os portugueses. Na mente do indígena criou-se a separação “Eu índio/Eles brancos”. O cristianismo tornou-se a porta de entrada para o mundo branco.

As relações entre os indígenas e os padres jesuítas encarregados da evangelização, evidentemente, não foram cem por cento amistosas. O registro histórico nos informa que o choque cultural muitas vezes causaram confrontos que terminavam em castigos físicos e padres canibalizados.

O maior erro deste primeiro contado foi justamente a imposição. Os primeiros cristãos, sem a força do Estado, convenciam, enquanto os últimos, já com a força do Estado, impunham. E pela força dessa imposição, sem a chance de seguir o caminho espiritual natural do cristão que é convencido, os povos indígenas manifestaram um cristianismo bem diferente do que pretendiam os jesuítas.

Embora, de certa forma, a conversão do índio fosse benéfica ao interesse econômicos da coroa portuguesa tal interesses muitas vezes se chocavam com os dos jesuítas, que não viam com bons olhos, por exemplo, a utilização de mão de obra escrava oriunda dos povos indígenas. Essas tensões que reverberando até os colonos, resultaram na Revolta de Beckman, indicam que as motivações econômicas não eram as únicas, principalmente quando se leva em consideração o papel que Portugal julgava ter dentro dos objetivos cristãos.

O fenômeno da conversão, muito embora possua a propriedade de fazer com que o indivíduo corrija uma trajetória que se desviou da rota apropriada, não altera as características que distinguem a pessoa. Saulo de Tarso não deixou de ser quem era, quando se tornou São Paulo, apóstolo. Pedro, depois da conversão, continuou a ser o mesmo sanguíneo Pedro com tudo o que o caracterizava como tal, só que agora, novamente na rota que o Criador originalmente havia programado para todo o gênero humano, desde os primeiros momentos da criação.

O indígena que é restaurado na direção do alvo original, não deixa de ser índio, pois ainda mantem todas as características que o definem como tal. Ele fala como índio, sente como índio, pensa como índio. Sua história, suas lembranças, tudo, enfim, continua a ser o que sempre foi e assim será até o último bater de seu coração.  Um índio cristão, não é menos índio do que qualquer outro.

Os primeiros missionários jesuítas eram meios imperfeitos de transmissão de uma mensagem perfeita. A cacofonia gerou violência e abusos. Todavia, pelos méritos da própria mensagem que a tudo renova e aperfeiçoa, o que era violência e abuso, hoje é vida e esperança, que ajudou a preservar a cultura dos povos na medida em que se tentava a comunicação nos seus próprios idiomas e costumes. Muitos destes costumes, aliás, ficaram registrados em milhares de documentos graças às anotações dos primeiros missionários.

O mundo está em constante modificação. As sociedades e suas culturas também. Na contramão da evolução, estão aqueles que lutam para que os povos indígenas vivam da mesma forma como viviam seus antepassados do século XVI. O indígena tem direito a desfrutar de todos os benefícios que a vida moderna pode trazer. Sua cultura não pode morrer, mas se modifica. É uma lei natural da existência humana.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Deus: A expressão máxima do amor


A princípio tentarei definir esta palavra que tantas emoções tem sido capaz de nos despertar sem que, contudo, compreendamos completamente o real sentido daquilo que é proferido pelos lábios.

Chegar a uma resposta objetiva, racional e conclusiva sobre o que seria o amor não é tarefa tão fácil quanto certa porcentagem da população mundial, julgo, poderia supor.

 A filosofia desde seus primeiros esforços em entender a realidade, tem se dedicado à tarefa de compreender o fenômeno e suas múltiplas formas.  Foi assim que os antigos gregos definiram quatro palavras para classificar os tipos de amor, dentre as quais, o termo ágape na filosofia neoplatonista cristã, foi associado ao amor divino, pois o termo define um tipo de amor imparcial, unilateral e transcendente. 

Tanto no cristianismo, como no judaísmo, e em uma versão mais antiga da mitologia grega, o amor está associado ao Criador. O amor incondicional, infinito, unilateral e transcendente, muito mais do que uma característica de Deus, é o nome pelo qual poderíamos chama-lo.  O maior ser que pode ser concebido deve ser a expressão máxima do amor. Ele é tão perfeito, tão completo, que todos os teus atos são expressões do seu amor pela sua criação.  O homem, obra prima de toda a criação, não foi criado com outro objetivo senão por amor ao próprio homem.

Este, penso, é a maior dentre as inúmeras diferenças entre a concepção de Deus apresentado pelo cristianismo e pelo islamismo. Enquanto Jesus ensina que o pai tem um amor incondicional pela humanidade, Alá deixa claro no Alcorão que não ama o pecador, o que dificulta a nossa visão de Alá como o “maior ser que pode ser concebido”.

Diferentemente do que acontece na concepção islâmica de Deus, dentro da visão judaico-cristã, Ele é a definição perfeita do amor, o ágape grego que não hesita em se fazer carne e experimentar o sofrimento por amor aos pecadores. O Deus bíblico, ao contrário de Alá, demonstra ser capaz de manifestar um amor incondicional pela humanidade, provando ser capaz de preencher os requisitos necessários para ser o “maior ser que pode ser concebido”.


Concluindo-se que o Deus bíblico é o único capaz de atender as exigências de um ser que é o “maior que pode ser concebido”, talvez fosse, agora, apropriada uma reflexão de como essa ideia de Deus se desenvolveu. Apropriada, explico, porque existe a necessidade de investigação um pouco mais profunda sobre como as múltiplas concepções da divindade, desde que a humanidade veio à existência.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Marco Feliciano x Felipe Neto



Se existe um mal que se alastra como uma praga na maneira de pensar do brasileiro é aquele que nos obriga a criticar tudo e conhecer quase nada. Este mal se tornou evidente no recente debate entre Marco Feliciano e Felipe Neto.

Não vou me concentrar no aspecto político do debate, uma vez que este foi muito bem tratado pelo senhor Feliciano, mas sim, no teológico, uma vez que foi precisamente ali, onde se tornaram mais gritantes os efeitos nocivos do mal. Curiosamente, Marco Feliciano se mostrou um melhor político, do que teólogo, apesar de ser pastor há muito mais tempo do que é político.

Em primeiro lugar, cabe perguntar se beber da fonte de bom grado e ao mesmo tempo a considerar contaminada seria uma atitude a ser esperada de qualquer um que analise os fatos de maneira apropriada, ou ter afeição por um médico que lhe curou de uma doença grave e ao mesmo tempo o considerar um incompetente, ou ainda, procurar o alívio para a dor na substância que lhe causa agonia mortal.

É exatamente este o erro que fica evidente na fala do jovem Felipe Neto, ao aceitar o Jesus Cristo pregado por Paulo, ao mesmo tempo em que recusa a aceitar o que Paulo fala em nome de Cristo. 
Naturalmente, Chesterton, num de seus arroubos de genialidade, acertou em cheio quando escreveu: “Fanático, é o homem que acha que o outro está errado em tudo, por estar errado em alguma coisa”.  Esta ideia não faria menos sentido se fosse colocada da seguinte maneira: “fanático, é o homem que acha que o outro está certo em tudo, por estar certo em alguma coisa”. Todavia, faltou ao jovem Felipe Neto explicar o porquê Paulo estaria certo sobre tudo, menos sobre um determinado assunto.

Por diversas vezes, o jovem Neto se mostrou melhor teórico, do que teólogo, ao interpretar o texto de Romanos sem contextualiza-lo com o que registra o livro de Apocalipse, pois se tivesse assim procedido, a conclusão de universalidade e atemporalidade teria sido tão clara como o céu, ao sol do meio dia.

Outra tese felipiana seria referente ao termo grego (e não hebraico) “malakoi”, que não encontra respaldo entre os maiores especialistas em textos bíblicos, como Walter Bauer, famoso teólogo e lexicólogo do Novo testamento, segundo o qual “malakoi” se refere ao comportamento homossexual passivo e arsenokoitai”., traduzido como “sodomita”, se refere ao comportamento homossexual ativo.

Obviamente, quando se está disposto a criticar ao invés de aprender, ou mesmo se esforçar para entender corretamente um assunto, as portas da racionalidade se fecham de tal maneira, que o que sobra é apenas um show de mal entendidos e complexos de pombo enxadrista.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O maior que pode ser concebido

O teísta que coleciona um determinado número de evidências a favor da existência de Deus e as utiliza como prova para a existência do Criador, está tão equivocado quanto o ateísta que também o faz colecionando evidências contra a existência de Deus.  Uma prova requer um teste.  Por mais evidências que se colecionem sobre a evolução das espécies, a teoria da evolução nunca será uma “lei da evolução” até que um teste possibilite que isto aconteça, constituindo uma prova.

Depois de desfazermos a confusão entre evidência e prova, é necessário, agora, sabermos que tipo de evidências devemos procurar.  Se seguirmos as pistas erradas, fatalmente seremos conduzidos a um lugar diferente de onde deveríamos estar.

O primeiro passo para saber quais evidências procurar é saber o que estamos procurando.  Sendo assim, como se define Deus?

Tentaremos assim: Deus é o maior ser que pode ser concebido.

Em torno desta simples frase, umas dezenas de pensamentos podem ser construídas.

Para começar, o maior ser que pode ser concebido deve, obviamente, ser maior do que tudo o que existe. Ele não pode estar limitado pelo espaço tempo, portanto não pode ser material. O maior ser que pode ser concebido deve ser, também, maior do que todas as forças existentes no universo, acima de qualquer intelecto, ilimitado, atemporal.

Ele não pode ser comparado a nenhum deus da mitologia grega, pois todos eles tiveram um início no tempo sendo, por isso, limitados por ele: Zeus era filho do titã Cronos. Afrodite nasceu depois que Cronos decepou o pênis do próprio pai, Urano, e jogou-o no mar. Há de se perceber com os deuses da mitologia grega eram limitados no tempo e, em muitos aspectos, o eram também fisicamente.  Certamente, nenhuma divindade grega possui os atributos para ser “o maior ser que pode ser concebido”. Somem-se a eles as divindades egípcias e nórdicas que possuem as mesmas características e fica fácil concluir que nenhum dos deuses de religiões politeístas podem se enquadrar na definição de Deus que estamos trabalhando.

Ao chegarmos a conclusão de que todos os deuses politeístas não podem ser  o “maior ser que pode ser concebido”, resta-nos atentar para as três grandes religiões monoteístas da atualidade: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.


Em sua vida pública Jesus testificou que a mensagem da qual ele era portador e as obras que fazia eram oriundas do mesmo Deus dos judeus, “O Deus de Abraão de Isaque e de Jacó”. Nos Evangelhos que chegaram até nós, estão registradas as palavras pronunciadas pelo Cristo, aonde em diversas oportunidades são apresentados os principais atributos que o maior ser que pode ser concebido deve ter: imaterialidade, atemporalidade, poder ilimitado, entre outros. Os muçulmanos ensinam que, o Deus Alá anunciado pelo profeta Maomé, é o mesmo Deus sobre o qual Jesus falou. Para verificar tal afirmativa é necessário um estudo mais aprofundado sobre um atributo necessário ao maior ser que pode ser concebido: o amor.