Há alguns dias atrás me envolvi em uma polêmica, ao postar em meu
Facebook o banner acima.
Esta polêmica resultou em neste debate entre mim e meu professor, que hoje
disponibilizo aqui
ELVIS: Nenhum futuro brilhante nasce
de perdas incomensuráveis.
PROFESSOR: Inspirado em Marx e realmente aprendendo com o estudo da
história humana, admite-se com realismo que a "a História não registra
quebra de estruturas sem violência". Diga-se de passagem que a própria
manutenção do status quo capitalista se dá ao custo diário de "perdas
incomensuráveis". Até mesmo o apocalipse bíblico narra a redenção humana
precedida por uma catástrofe devastadora, com requintes de crueldade de um deus
justiceiro, na qual se salvariam apenas os eleitos! Como grande historiador que
ele foi, não poderíamos esperar uma resposta diferente dele: Sim.
ELVIS: Professor, penso que se o capitalismo é uma prática econômica, não
uma ideologia com planos para a humanidade. Se ele tem essa característica
cruel é por falta de consciência moral das elites. Vejo com desconfiança e
preocupação qualquer sistema de ideias que pretenda criar o "paraíso na
Terra", ou o "Novo Homem". Creio que a situação apenas piora
quando confundimos os Direitos Divinos, com o banho de sangue que o homem
promove na tentativa de resolver os problemas do mundo. Hobsbawm foi taxativo,
respondeu de maneira coerente com a ideologia que professava. E isso é triste.
PROFESSOR: Seria necessário você estudar profundamente Marx e os
marxistas, mas também Weber, para compreender que o capitalismo é muito mais
que uma prática econômica. A condenação moral das elites a qual você se refere
é apenas uma etapa superficial da crítica ao capitalismo, há que se pensar as
estruturas que organizam todo um modo de vida que foi construído historicamente
com "banho de sangue", inclusive a "moral" é histórica. Não
creio que a afirmação de Hobsbawm seja coerente com uma ideologia (apenas), mas
coerente com a História (disciplina acadêmica). Na verdade, suas afirmações que
me deixam preocupado, pois me parece que o curso de História foi para você
superficial. Fico ainda mais preocupado quando vejo que esse Olavo de Carvalho
tem forte influência sobre você e outros estudantes. E isso é muito triste. Há
uma dificuldade no processo de compreensão do conhecimento acadêmico, os textos
são difíceis, rigorosos, teoricamente e metodologicamente organizados. É o caso
da tradição marxista, os autores não são assimiláveis de forma rápida e fácil.
Já o discurso retórico dos ideólogos conservadores se assimila por
"osmose", pela coerência aparente, pela crítica superficial, por ir
ao encontro do "senso comum" amplamente disseminado, por não demandar
o exame profundo das questões.
ELVIS: Porém acredito, professor, que essas "estruturas que organizam
todo um modo de vida" nasceu com o distanciamento do capitalismo dos
valores morais cristãos. Desde o início do século XX é que diversos autores no
decorrer da história tem dito isso. Chega até ser injusto o senhor dizer que o
curso de historia para mim foi superficial, pois acredito que nem a metade da
minha turma teria capacidade de entender o que que estamos dialogando aqui.
Engana-se, professor. Não estou cursando história para ser mais um funcionário
da rede pública. Minha postura no curso tem sido questionar tudo, alternando a
leitura sugerida nas aulas, com outras que apresentem uma visão diferente. É
extenuante, mas extremamente gratificante. Não acho que isso é ser superficial.
Quanto ao Olavo de Carvalho, muito do que ele escreve é pautado em trabalhos de
vários estudiosos, livros que ele indica e que não são conhecidos da maioria.
Mas, pra constatar isso o senhor teria que ter contato com a obra dele. Então,
devolvo para o senhor a peteca que me mandou, rs.
PROFESSOR: Não afirmei que você é superficial. Compartilhei com você
minha suspeita e preocupação de que seu aproveitamento das leituras indicadas
no curso terem sido superficiais (rápidas). Pois em minha visão, o estudo da
História (disciplina acadêmica) é bastante enfático nas questões das
construções estruturais da cultura, economia, política, sociedade, etc. O que
escreveu acima, novamente é um exemplo dessa minha preocupação. Quando afirma o
"distanciamento do capitalismo dos valores morais cristãos", lembro
que há um trabalho clássico de Weber: "A ética protestante e o espírito do
capitalismo" que defende justamente a tese oposta e contra Marx, que
certamente lhe foi indicado em História Moderna. Não daria para suprir a
leitura deste texto para você aqui. Quanto a sua devolução da
"peteca", há uma distância incomensurável entre eu lhe indicar o
estudo de Marx, reconhecido mundialmente e historicamente como um autor central
para o entendimento do capitalismo, até mesmo por aqueles que necessariamente o
criticam, e sua indicação de leitura de Olavo de Carvalho, completamente marginal
no cenário acadêmico. Bem, estou monido da intenção de lhe sugerir que há um
campo de produção intelectual confiável e outros nem tanto. Realmente seria
interessante que Olavo de Carvalho participasse, não que ele tenha algum peso.
Também não me considero um "peso pesado da história", mas certamente,
já tenho bastante referências seguras de quem são os "pesos pesados"
e busco aprender permanentemente com eles!
ELVIS: O que escrevi não é tese minha. Como eu disse, existe uma gama de
estudiosos que defendem uma posição contrária a aquela apresentada pelas
leituras que o senhor indica: são historiadores, sociólogos, economistas,
analistas políticos... Pessoas tão capacitadas e brilhantes quanto Hobsbawm,
cujo trabalho, infelizmente, não tem sido objeto de estudo em nosso curso.
Acredito professor, que o conhecimento nasce com confronto de idéias. Por isso,
todo o conhecimento que adquiro na faculdade, todas as teses e afirmações dos
professores, procuro pesquisar em outras fontes, pra saber o que o “outro lado”
tem a dizer. Quem não faz isso não esta se educando, está sendo doutrinado. Foi
fazendo isso professor, foi que descobri que Weber faz uma análise incompleta
do capitalismo na obra citada, visto que ele parte do pressuposto de que o
capitalismo esta atrelado ao surgimento do Protestantismo, quando na verdade, o
mesmo está associado ao Cristianismo.
PROFESSOR: Concordo com você quando diz que um estudante de história
deve buscar outras fontes, para além do que é indicado pelos professores na
universidade, exercitando dessa forma a autonomia intelectual. Estabelecer o
contraste de ideias e conseguir ter claras as diversas orientações políticas
dos autores, tudo isso é mesmo da essência das ciências sociais. Tenho a
certeza que os autores e textos que os professores universitários (competentes)
indicam, ou seja, a bibliografia que utilizamos, são textos consagrados pela
comunidade profissional dos historiadores, com indicação de fontes, seja da
bibliografia ou dos documentos históricos, de forma que dificilmente poderíamos
afirmar que se trata de uma doutrinação. Quanto ao Weber, sugiro a releitura,
pois sua descoberta me parece um tando dissociada de tudo que li sobre a
"Ética protestante e o espírito do capitalismo", em todo caso, fiquei
curioso de saber onde e como fez essa descoberta, por favor, caso possa,
aponte-me o autor e texto, pois é um tema que tenho interesse. Quanto ao
Argumentum ad populum que você me acusa, certamente não se aplica a Marx ou à
tradição acadêmica marxista. Até mesmo no interior do marxismo acadêmico, há
correntes heterodoxas, revisionistas, etc. Diria ainda que o marxismo,
justamente pelo potencial crítico que contém, foi alvo predileto do ataque de
ímpeto conservador, que construiu historicamente com eficiência no Brasil e no
mundo uma contrapropaganda anticomunista, esta sim, fortemente ancorada em
Argumentum ad populum, de forte aceitação, justamente porque grande parte da
população desconhece a obra marxista e não tem acesso à universidade, pois
então poderiam ter acesso a um conhecimento mais aprofundado, os tornando menos
vulneráveis à doutrinação conservadora. Sobre o tema do anticomunismo no
Brasil, indico a leitura desse trabalho de Rodrigo Patto Sá Motta:
PROFESSOR: Prezado estudante, creio que busquei fazer o
meu papel como cidadão e professor de História, alertando-o do perigo bastante
contemporâneo que foi agravado pela disseminação da internet, que disponibiliza
um quantidade avassaladora de informações, nos colocando o desafio de aprender
a selecionar criteriosamente nossas fontes de pesquisa e de estudo. Caso me
permita uma última contribuição, para seus estudos das ciências humanas, em
suas pesquisas, consulte teses e dissertações, revistas ou publicações de
grupos de pesquisas hospedados em sítios de universidades, bem como artigos de
revistas científicas nas bases da Scielo Brasil, portal de periódicos CAPES,
além das buscas nos acervos das próprias bibliotecas universitárias.
ELVIS: Agradeço imensamente as indicações das obras,
as quais irei me dedicar tão logo o tempo me permitir. Gostaria de ter o tempo
hábil para me dedicar exclusivamente à leitura e a pesquisa. Contudo, as
solicitudes da vida me obrigam no momento, a postergar meu intento, para me
dedicar à família, obrigações da faculdade e trabalho, situação e com certeza o
senhor entende, posto que, certamente, tem uma vida tão ou até mais corrida do
que a minha. Uma pena que neste país seja mais fácil conseguir patrocínio para
um atleta do que para a atividade intelectual.
(ok, ok, mantenham a mente aberta, rapazes! E
dêem uma chance ao cara!)
·
PROFESSOR:
Conteúdo: 1. a tradição do pensamento marxista se fez hegemônica nas
ciências humanas e sociais justamente pelo conteúdo crítico que contém, e no
campo político foi responsável pelo antagonismo ideológico praticamente de todo
o século XX. 2. tradições paralelas se construíram tendo como centro de
referência o marxismo, seja buscando indicar suas falhas, seja buscando
complementá-lo ou negá-lo, em suma, o marxismo foi o centro que pautou o
debate. 3. Realmente minha suspeita se reafirma a cada post seu, só uma leitura
superficial poderia concluir que a obra marxiana e a tradição marxista não tem
conteúdo. 4. A centralidade adquirida pelo conteúdo crítico do marxismo explica
o grande número de historiadores marxistas que tornaram-se, pelo conteúdo
crítico dos respectivos trabalhos, pela qualidade da pesquisa documental , a
densidade teórica e rigor de método, referências básicas nas bibliografias de
cursos no campo das ciências humanas. 5. Entretanto, ele não é mais hegemônico,
desde a década de 1990, é possível perceber que pauta do debate nas ciências
humanas mudou profundamente.
Pezinho na esquerda. Por que grande
número de professores de história são simpatizantes ou militantes de esquerda?
Seria porque são oriundos das classes sociais desprovidas dos meios de
produção? Porque tiverem a oportunidade de estudar e se identificaram por terem
referências diárias das contradições estruturais do capital? Seria por sentem a
exploração do capital na pele? Posso compreender que Eike Batista se
identifique com Olavo de Carvalho, já sua admiração por ele se apresenta a mim
como um desafio sociológico, antropológico ou ainda, psicológico. Estou
tentando compreender, com todo o respeito.
Um Olavo no vídeo, outro no texto:
isso me parece inconsistente. O do vídeo já me faz perder a vontade de ler o do
texto. Talvez no texto a retórica seja um pouco mais rebuscada...mas é
realmente apenas uma suspeita...não li.
Currículo conservador. Ok. É um ótimo
currículo conservador...e que mais? Quanto ao conteúdo, que tese dele pautou o
debate acadêmico contemporâneo? Há alguma interpretação instigante dele sobre o
Brasil que tenha merecido atenção no debate acadêmico mais amplo? Afirmar que a
academia é burra não serve.
Sobre a retomada do "sim"
de Hobsbawm, não será necessário reescrever meu primeiro post.
Discutir o capitalismo com Olavo de
Carvalho? Aceito o convite de tomar a cerveja no bar com você...
ELVIS: Existe uma diferença entre estudar o marxismo
enquanto fenômeno social, econômico e político e estudar história sob o viés
marxista. Este é o ponto. Para estudar o marxismo é essencial estudar os textos
de Marx e as análises que se fazem sobre ele. Claro que, para fins de pesquisa,
não poderíamos deixar de lado autores marxistas, sobretudo Antonio Gramsci, que
tanta influência teve aqui na terra de Cabral. Entretanto, no curso de
história, aprendemos, por exemplo, as teorias econômicas de Jorge Beinstein,
economista marxista e nem tomamos conhecimento de Ludwig Von Mises que provou
por A mais B o porquê de a estatização da economia não funcionar. É este tipo de
coisa que me faz pensar, muitas vezes, em uma faculdade/palanque político.
PROFESSOR: Você que leu, poderia me adiantar alguma interpretação
instigante de Olavo de Carvalho?
Quanto ao marxismo, não
tratei dele aqui como um "fenômeno social", sempre estive me
referindo à tradição acadêmica, ou seja, a utilização dos pressupostos
teóricos-metodológicos para a compreensão e crítica "radical" (que
vai à raiz) do capitalismo.
Quanto à questão do
papel do Estado no desenvolvimento do capitalismo, tenho uma indicação para que
você tenha elementos para descartar Von Mises e todos os demais ideólogos do
liberalismo e neoliberalismo, segue referência: FIORI, José Luís (org.).
Estados e moedas no desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes, 1999.
É bastante possível que
muitos professores de História realmente não tenham um conhecimento aprofundado
de Marx, marxismo ou outras correntes teórico-metodológicas das ciências
humanas e sociais. Isto é fato notório. Creio que isto, inclusive, é que
favorece a "doutrinação" de muitos deles, de um lado, por um marxismo
vulgar praticado nos movimentos sociais e partidos políticos, seja pela
doutrinação ainda mais rasteira dos ideólogos adeptos do anticomunismo.
Contudo, uma pré-disposição dos professores de História a situarem-se no campo
político à esquerda, ainda que não por convicções de base científica, parece-me
plenamente compreensível pelo motivos expostos acima. Já o filho do Eike
Batista, ou ele próprio à esquerda, seria um desafio sociológico,
antropológico, psicológico....
ELVIS: “Você que leu, poderia me adiantar alguma interpretação instigante de
Olavo de Carvalho?”
PROFESSOR: Coloquemos de um lado, Marx, que não foi um acadêmico de
gabinete, foi um militante político. De sua obra, desenvolveu-se uma tradição
acadêmica nas diversas disciplinas. Noutro campo, pensemos a apropriação da
obra marxiana pelos partidos políticos e
É bem possível que o trabalho
de muitos "pretensos intelectuais" se encore apenas nas credenciais
acadêmicas. É evidente, entretanto, que um trabalho sem rigor
teórico-metodológico não sobreviva à crítica. Há na academia como na política,
o "alto e bai
Concordo que a
interpretação econômica apenas não basta. Tanto que Eike Batista à esquerda
seria um desafio transdisciplinar: sociológico, antropológico,
psicológico...como afirmei antes.
ELVIS:
OBS: Depois deste debate, postei uma mensagem que reflete minha opinião sobre o ativismo gay. O professor me excluiu do facebook, me acusando de homofobia e dizendo que não queria reacionários em sua rede social.