Pequenos textos sobre história antiga, medieval e contemporânea, escritos à minha maneira(o que não é lá grande coisa)
sábado, 16 de fevereiro de 2019
segunda-feira, 19 de novembro de 2018
REFORMA PROTESTANTE: BENEFÍCIOS E MALEFÍCIOS PARA A EDUCAÇÃO NA REVOLUÇÃO DE LUTERO
Resumo
Antes mesmo de Teodósio I,
imperador de Roma, instituir o cristianismo religião oficial do Império Romano
em 380 por meio do Édito de Tessalônica, não eram desconhecidas comunidades de
cristãos que não se identificavam com a religião organizada. Eram cátaros,
valdenses, albigenses e anabatistas que no decorrer da história, por não
partilharem das mesmas crenças da religião institucionalizada pelo Estado, receberam
o título de hereges. A palavra “heresia”, deriva do latim “haeresis”, que, por sua vez se origina do grego “haíresis” que significa “Capacidade de
escolher”. A Reforma Protestante do século XVI, também considerada na época um
movimento herege, não se compara em termos de influência aos primeiros
dissidentes. Seu alcance foi muito maior, abarcando além da religião, a
economia, a filosofia, a política e a educação. Este trabalho terá como foco as
influências da Reforma na Educação que foram introduzidas por Martinho Lutero,
um dos seus principais personagens. Ao ser excomungado em 1521, através da bula
papal Decet romanum pontificem,
Lutero liderou um movimento de reforma do cristianismo, no qual a Educação
possuía uma importância central, visto o destaque que a leitura e interpretação
da Bíblia possuía para os reformistas. Mostraremos, ainda, como tais modificações
nas práticas educativas promovidas por Lutero trouxeram à existência uma
cultura alemã. Por fim, identificaremos os elementos educacionais luteranos que
ainda hoje persistem na educação moderna.
Palavras
chaves: Reforma Protestante, Martinho Lutero, Educação, Cristianismo.
ABSTRACT
Even before Theodosius I,
emperor of Rome, instituted the Christianity official religion of the Roman
Empire in 380 by the Edict of Thessalonica, were not unknown community of
Christians who did not identify with organized religion. They were Cathars,
Waldensians, Albigenses, and Anabaptists who, in the course of history, for not
sharing the same beliefs of religion institutionalized by the State, were given
the title of heretics. The word "heresy" derives from the Latin
"haeresis", which in turn originates from the Greek
"haíresis" which means "Ability to choose". The Protestant
Reformation of the sixteenth century, also considered at the time a heretical
movement, does not compare in terms of influence to the first dissidents. Its
scope was far greater, encompassing religion, economics, philosophy, politics,
and education. This work will focus on the influences of the Reform in
Education that were introduced by Martin Luther, one of its main characters.
When he was excommunicated in 1521, through the papal bull Decet romanum
pontificem, Luther led a movement of reform of Christianity, in which Education
had a central importance, given the prominence that the reading and interpretation
of the Bible had for reformers. We will also show how such changes in the
educational practices promoted by Luther brought to the existence a German
culture. Finally, we will identify the Lutheran educational elements that still
persist in modern education today.
Keywords:
Protestant Reformation, Martin Luther, Education, Christianity.
Introdução
As
profundas mudanças de ordem social, econômica, política e religiosa que ocorreram
na Europa do século XVI e que se convencionou chamar de Reforma Protestante,
foi a culminância de diversos acontecimentos históricos (MATOS, 2016).
O
Sistema Feudal que predominou na Europa desde o século V, sofreria enormes
modificações a partir do século XIV: aumento da população que impossibilitava o trabalho
agrícola forçando a saída dos camponeses que se mudavam para as cidades,
guerras, pestes, chuvas torrenciais que prejudicavam as colheitas, rebeliões
camponesas como as jaquerries na
França que empobreciam cada vez mais os nobres.
Em
contrapartida, uma vez desfrutando das comodidades da vida nos burgos,[1] ex-camponeses convertidos
em sapateiros, ferreiros, alfaiates, carpinteiros, feirantes e banqueiros,
acumulavam poder econômico transformando-se numa nova classe social.
Os
burgueses possuíam poder econômico, mas lhes faltavam o político, o que
dificultava suas atividades. Os nobres tinham terras desvalorizadas e poder
político, necessitavam, porém, do dinheiro burguês para sobreviver.
Do
mutualismo nobre-burguês surgiu uma das mais fascinantes criações humanas: as
nações.
Cidades
que floresciam, costumes que se modificavam, o estilo de vida burguês logo
tomou conta da Europa. Novas prioridades, um novo foco. O Renascimento
deslocara a atenção dos homens, de Deus para os próprios homens. Já os
humanistas acreditavam na evolução do ser humano por meio da razão[2], do conhecimento. Fundaram
universidades onde as pessoas podiam mergulhar no mundo da filosofia, da
matemática e diversos outros assuntos.
Mas
ao próspero burguês, contudo, faltava ainda algo: o apoio ideológico.
Para
a maior representante do cristianismo daquele tempo, Igreja Católica, o lucro,
os juros a acumulação de bens, era usura[3], o que estava totalmente
na contramão dos desejos daqueles bem-sucedidos comerciantes. Aos nobres, incomodava um clero que interferia
na política enquanto acumulava cada vez mais poder. Por fim, os abusos e
desvios cometidos por alguns representantes da igreja estimulavam as críticas
dos que exigiam uma renovação de ordem religiosa. Um dos primeiros a realizar
tais críticas foi o teólogo inglês John Wycliff (KNIGHT, ANGLIN, 1983). John
Huss foi outro reformador antes da Reforma, que por suas críticas à corrupção e
ao luxo dos clérigos foi martirizado em 1415.
Quando
o alemão Martinho Lutero afixou suas 95 teses na igreja do Castelo de Wittenberg no dia 31 de outubro de 1515
dando início a Reforma Protestante, os burgueses que ansiavam por amparo
ideológico não deixaram de perceber a oportunidade que ali nascia. Oportunidade
que criou raízes não muito tempo depois, por meio do desenvolvimento da moral
econômica calvinista.
Para Lutero a reforma da religião estava
estritamente ligada à reforma da educação:
Lutero
reformou a religião e participou do início da organização da educação moderna
pública. As duas preocupações de Lutero, celebrar a missa no idioma do cristão
e a possibilidade dele ler a bíblia, acabaram, no mínimo por democratizar o
ensino que ao longo de toda a Antiguidade e Idade Média, sempre esteve restrito
a pequenos grupos representantes de classes sociais mais privilegiadas pela
sociedade. (VARELA, 2014, pg.238)
Tal
preocupação resultou numa verdadeira revolução na Educação, ajudando a moldar o
que conhecemos como cultua alemã nos dias atuais. Além disso, certos elementos
contidos nas propostas educativas de Martinho Lutero se fazem presentes em
épocas contemporâneas e em várias partes do mundo inclusive no Brasil.
Nas
próximas linhas tentaremos compreender a profundidade de tais modificações introduzidas
por Lutero e suas influencias que se fazem sentir no mundo atual.
Capítulo 1: Martinho Lutero
Nascido
em Eisleben, Saxônia, no ano de 1483. Quando completou a idade adequada
ingressou na Universidade de Erfurt (FEBVRE, 2012). Por influência de um ancião
agostiniano passou a rever suas crenças a respeito da salvação e da remissão
dos pecados.
Em
1508 transfere-se para a universidade de um certo Staupitius, a pedido do
próprio, onde continua a dedicar-se aos estudos teológicos dentre outras atividades.
Tinha, então, vinte e seis anos de idade. Três anos mais tarde recebe o título
de doutor.
Em
1516 com o intuito de financiar as cruzadas, o Papa Leão X inicia a
distribuição de perdão, arrecadando riquezas. Inúmeros encarregados pela coleta
se espalham pela Europa, oferecendo a libertação de almas do purgatório por 10
xelins. Tetzel, frade dominicano, é o mais impetuoso dos coletores. Seus
sermões considerados blasfemos[4] ascendem a indignação de
Martinho Lutero, que em represália escreve 95 críticas à Igreja, afixando-as no
dia seguinte à porta do templo adjacente ao castelo de Wittenberg. Era o dia 31
de outubro de 1517.
Intimado
a dar explicações de sua conduta, foi a Roma. Após várias audiências com
autoridades da Igreja, por sua obstinação e recusa em se retratar foi excomungado
da Igreja Católica junto com seus seguidores, doravante chamados luteranos, por
meio da bula Decet romanum pontificem de
1521. Perseguido e obrigado a viver as escondidas somente não foi preso e
executado devido a proteção do nobre Duque Frederico.
Protegido,
trabalhava na tradução da Bíblia para o alemão, obra marcante para a nação e
para a literatura alemã (CARPEAUX, 1963) bem como em diversos outros livros
onde defendia ideias como o fim da pobreza e mendicância voluntária dos
sacerdotes, que os casos de heresia deveriam ser julgados por meio de provas
nas Escrituras e que as crianças deveriam ser alfabetizadas por meio do
Evangelho.
Em
1546, estando escondido e protegido por alguns príncipes da Saxônia, Lutero já
estava escrevendo e fazendo sermões há vinte e nove anos, tendo falecido neste
mesmo ano em Eisleben.
Para
o historiador Otto Maria Carpeaux (1963), Lutero foi a personalidade mais
influente da literatura alemã, maior ainda que Goethe. Foi um patriota alemão,
embora não tenha sido um nacionalista já que o conceito de nacionalismo ainda
não existia nas mentes medievais. Foi o primeiro homem moderno cujo o espírito
foi formado com a leitura da Bíblia e de Santo Tomás de Aquino. Foi também um
dos grandes gênios religiosos da humanidade, que não deixou de transparecer os
aspectos mais humanos:
Não foi
um anjo da luz. Foi, como se disse na Alemanha do seu tempo, um Grobianus,
homem grosseiro, lançando palavrões incríveis com a mesma paixão que dedicava à
boa música e com que combateu cruelmente os pobres camponeses revoltados. Foi
um grande alemão, quase santo e quase demoníaco. (CARPEAOUX, 1963, pg. 20)
Em
várias de suas obras demonstrou além do domínio perfeito do alemão, uma extraordinária
capacidade jornalística. Também foi o maior tradutor de todos os tempos: em
seus trabalhos de tradução do Antigo e do Novo Testamento, criou expressões e
locuções bastante utilizadas no alemão moderno.
As
ideias de Lutero sobre educação podem ser encontradas em diversos de seus
livros (BARBOSA, 2011), cuja análise revela a existência tanto a organização do
sistema de ensino, como a discussão de princípios específicos para a educação.
Além
disso foi o primeiro a romper com a tradição e sugerir uma educação de
responsabilidade do Estado ao invés da Igreja. Como veremos nas próximas
linhas, essa abordagem desencadeará consequências positivas bem como negativas.
Antes,
porém, com o objetivo de construir uma imagem mais clara das transformações
promovidas por Lutero na Educação, será útil uma abordagem sobre a educação na
Idade Média.
A Educação na Idade Média
O
período de mil anos conhecido como Idade Média, se inicia com a queda de Roma
no século V e termina no século XV com a queda do Império Romano do Oriente. (SCHNEIDER,
2007)
No
imenso território outrora ocupado pelo Império Romano, depois ocupado por povos
visigodos, ostrogodos, burgúndios, lombardos e francos, somente uma instituição
romana resistiu, graças principalmente a habilidade dos clérigos de fazer
acordos e alianças com os líderes invasores. O fato mais expressivo neste
sentido, foi a conversão e o batismo do rei franco Clóvis em 508 d.C. Tal
aliança alicerçou a influência da Igreja Católica na Europa que passou a ter
grande domínio na sociedade, inclusive na educação.
A
Educação medieval se caracteriza pelo controle da Igreja e pelo predomino das
temáticas religiosas. O objetivo da prática educativa neste período é a defesa
da fé cristã e a conversão dos não-cristãos. Todo o esforço era no sentido de
unir a fé com a razão e a sua prática era limitada às igrejas e aos
monastérios.
A
Educação do período medieval pode ser dividido em duas tendências (SCHNEIDER,
2007): a Educação patrística que consistia na exposição racional da fé
religiosa a Escolástica que pretendia explicar o cristianismo por meio da
especulação filosófica.
Desenvolvida pelos padres da Igreja, a
educação patrística remonta ao período que antecede a queda do Império Romano e
se preocupa principalmente com as relações existentes entre a fé a ciência. Por
meio da filosofia platônica, visava desenvolver uma ética moral rigorosa e o
controle racional das paixões. Seus principais representantes são Orígenes,
Clemente de Alexandria e Tertuliano. Merece ainda, especial destaque os
trabalhos de Agostinho de Hipona.
Era
característica da educação escolástica a especulação filosófica-religiosa.
Tomás de Aquino, o maior expoente deste tipo de educação, acreditava na
existência de crenças que podiam ser provadas pela razão e também em crenças
cuja falsidade ou não, não podiam ser provadas. Para Aquino não havia contradição
entre a razão e a palavra revelada, sendo que quanto mais racional fosse a
pessoa, mais cristã ela seria.
Ao
longo do século XVI a educação escolástica começa a se tornar mais restrita,
sofrendo um processo de dogmatização. O princípio da autoridade se torna o
valor dominante e qualquer conceito que não estivesse de acordo à regra do magister dixit.[6]
Quando
Martinho Lutero com suas 95 teses desencadeou o processo que chamamos de
Reforma Protestante, esta era a configuração no campo da Educação.
Para
os reformadores não bastava a mudança espiritual dos fiéis, pois buscavam
também uma “base cultural sólida” (VALENTIN, 2010), que pressupunha uma mudança
no sistema educacional medieval.
A
seguir veremos as propostas de Lutero para a reformulação da educação.
Capítulo 2: Lutero e a Educação
Para
além da reforma religiosa, as maiores preocupações de Lutero foram a
possibilidade de os alemães lerem a Bíblia e assistir as missas, que eram
ministradas em latim, no seu próprio idioma. Assim começaram os trabalhos para
organizar a educação pública. (VARELA, 2014)
A
maior característica desta nova prática educativa é a democratização, uma vez
que a educação perpetrada na Idade Média era limitada aos mosteiros, monastérios
e igrejas, bem como destinadas à pequenos grupos sociais mais distintos.
Outra
grande característica do ensino proposto por Lutero é a ideia de que o Estado,
e não a Igreja, fosse a responsável pelo oferecimento da Educação ao povo,
lançando as bases do que depois se tornou o conceito do laicismo dois séculos
antes da Revolução Francesa.
Em
diversas oportunidades Lutero se posicionou a favor da educação enquanto um
direito de todos:
[...] na Carta aos conselheiros comunais de
todas as cidades da Alemanha (1524); no Sermão sobre a necessidade de mandar os
filhos à escola (1530), além de outros escritos de caráter religioso como o
Grande e pequeno catecismo (1529). (VARELA, 2014, pg. 239)
Ainda
sobre os princípios educacionais de Lutero, o dever das autoridades municipais
de criar e manter instituições de ensino parte do princípio de que a
aprendizagem estritamente ligada a religião, iniciaria com a
alfabetização/letramento por meio da Bíblia.
A
base da educação proposta por Lutero eram as línguas: grego e hebraico, para
possibilitar a compreensão adequada das Escrituras, e o alemão. A literatura
cristã e pagã também era estudada, além das artes (música, pintura, escultura)
e medicina.
Varela
(2014) ainda destaca as considerações de Lutero a respeito dos professores, que
deveriam possuir o perfeito equilíbrio entre severidade e amor.
Não
deve ser olvidado os colaboradores de Lutero, dentre os quais, é lícito citar
Valentin Trotzerdorf, criador do princípio da autonomia escolar.
Johannes
Bugenhagen, além de ser considerado o fundador da escola secundária, é também
criador da escola primária (VARELA, 2014)
Tendo
suplantado a barreira da Alemanha, a Reforma Protestante atingiu mentes e
formas distintas. Na França, na Suíça, na Bélgica e partes da Inglaterra houve
influência de João Calvino. Na Inglaterra de Henrique VIII, o mesmo
anglicanismo que reformou a religião criou inúmeros colégios para o ensino dos
burgueses e cavaleiros pobres.
Democratização
e liberdade foram as maiores conquistas da Reforma Protestante para a Educação.
Todavia é necessário observar que o movimento de Lutero também criou
precedentes não tão positivos, conforme mostraremos a seguir.
Aspectos negativos da Reforma Protestante
Se
existe uma palavra que pode resumir a reforma proposta por Lutero esta palavra
é “liberdade”. (JUSVIACK, WESTPHAL, 2016), pois sendo a natureza do ser humano pecaminosa,
não há nada que ele possa fazer para alcançar a salvação. A salvação, pois, é
uma graça exclusiva concedida por Deus mediante o sacrifício de Jesus Cristo.
Não faz o menor sentido a Igreja se posicionar como mediadora entre o ser
humano e Deus, visto que nada do que ela pode fazer é efetivo em termos de
salvação. Seguindo este raciocínio Lutero conclui que a única função da Igreja
é orientar os fiéis por meio das Escrituras, pois só nelas é que se pode
encontrar a Verdade, podendo neste ponto abarcarmos a importância da educação
para melhor compreendê-la. Sendo a Igreja apenas aquela que mostra o caminho, o
cristão tem a possibilidade de exercer o livre arbítrio para alcançar o favor
imerecido de Deus.
Se
o cristão, pois, é livre em suas decisões espirituais, quanto mais nas
temporais, como pontua Jusviack e Westphal
(2016, pg. 102) :
Lutero
também rejeitava a pretensão do clero de exercer jurisdição sobre os assuntos
temporais. O entendimento era de que a Igreja não possui nenhuma jurisdição,
seja espiritual ou temporal. Sendo ambos os reinos regidos por Cristo, no reino
espiritual cabe aos papas e bispos apenas ensinar a palavra d’Ele, ao passo que
no reino terreno cabe às autoridades seculares governar os assuntos temporais,
inclusive com poderes coercitivos.
Para
Lutero era mister que o bom cristão fosse obediente à autoridade secular
conforme orientado nas Escrituras[7]. Por conseguinte, às
autoridades seculares são atribuídos papéis preponderantes:
A autoridade secular é instituída para ser uma tranca contra as forças
do mal e deve ter a função de promover o bem para que a vida seja garantida,
como a família, a economia, a educação, a política, ou seja, o estado secular,
que não é determinado pelo âmbito religioso, tem a função de garantir o
convívio social em todos os seus aspectos (JUSVIACK, WESTPHAL, 2016, pg.96)
Na
Reforma Protestante, está, pois, a origem da separação entre Igreja e Estado.
Propagando-se
pela Europa, o desenvolvimento de tais ideias criou reflexos na educação, agora
submetida ao Estado ao invés da Igreja. Estado, que cada vez mais opressivo
encontrou na educação uma eficiente máquina de propagação de ideias cujo
objetivo máximo era manter o status quo.
Pode-se
afirmar diante do que foi exposto, que na revolução de Lutero era central o
papel da educação, e primordial a tarefa das escolas. Veremos, agora, quais
elementos desta educação vigoram nos dias atuais.
O legado da Reforma para a educação dos dias atuais
Na
prática educativa da atualidade é possível identificar alguns elementos oriundos
da Reforma Protestante: a noção da educação como responsabilidade do Estado, da
escola pública enquanto uma instituição laica e de uma escola que ensina o
dia-a-dia e não apenas abstrações intelectuais (Ramiro, 2012)
Lutero
também acreditava, no tocante à educação infantil, que os conceitos poderiam
ser melhor assimilados se a criança aprendesse brincando. “Aprender brincando”
é algo amplamente praticado na pedagogia atual.
Em
um de seus escritos, Lutero revela que considerava as escolas medievais
verdadeiros purgatórios, onde os alunos eram “torturados” por meio de
conjugações e declinações. Propunha, pois, que as línguas fossem ensinadas por
meio de brincadeiras. Atualmente, o uso de jogos e brincadeiras faz parte da
metodologia no ensino de línguas.
As
mudanças introduzidas por Lutero atingem até mesmo a estrutura organizacional
da educação:
Lutero
não somente atinge a Igreja Católica com suas críticas, mas influencia a
educação quando produz uma reestruturação no sistema de ensino alemão,
inaugurando uma escola moderna. A ideia da escola pública e para todos,
organizada em três grandes ciclos (fundamental, médio e superior) e voltada
para o saber útil nasce do projeto educacional de Lutero. (FERRARI, 2005, p. 30-32)
Nota-se,
que quinhentos anos depois da Reforma, a educação moderna ainda carrega sua
influência nos genes.
Conclusão
A Reforma Protestante ocorrida na Europa
do século XVI desencadeou mudanças estruturais profundas não apenas na
religião, mas também na sociedade, na política, na economia e na educação.
Para atingir a mudança proposta pelos
reformadores o campo educacional era essencial, tendo em vista a necessidade de
o cristão ler e entender a Bíblia corretamente. Diante deste fato Martinho
Lutero, o principal agente da reforma na Alemanha, propõe uma série de mudanças
que rompem com a pratica educativa que foi característica durante toda a Idade
Média.
Foram notórias as contribuições de
Martinho Lutero para a educação: para além da religião, o reformador alemão é
considerado o criador de toda uma cultura que começa com o desenvolvimento de
um idioma e culmina em uma tradição literária alemã. Basicamente, o idioma
falado da Alemanha de hoje é o alemão de Lutero. As mudanças introduzidas por
Lutero na educação de sua época trouxeram à tona a democratização do ensino, a
escola laica e o aprimoramento no ensino de idiomas, com metodologias cujos
resquícios ainda podem ser observados nas escolas modernas. É dos seguidores de
Lutero o conceito de educação infantil e de liberdade escolar.
Por outro lado, essas alterações
tornaram possível o fortalecimento do Estado que aumentando o seu controle
sobre a população deu origem aos primeiros focos de tirania, transformando a
escola numa ferramenta de manutenção do poder estatal.
Sobre as características pessoais do reformador,
a historiografia de que dispomos nos fornece um painel que vai de alto a baixo
dependendo das convicções do pesquisador: para uns Lutero foi um degenerado, um
traidor, o estereótipo do anticristo senão o próprio. Para outros foi um santo,
um homem repleto de virtudes divinas.
Virtus
in medium est. O historiador Otto Maria Carpeaux, mostrou
quem era Lutero neste mar de opiniões tão divergentes: um ser humano notável,
que fez coisas terríveis e também maravilhosas, como somente seres humanos são capazes
de fazer.
A pesquisa sobre os efeitos da Reforma
Protestante sobre a educação é necessária, na medida em que promove uma
reflexão sobre o papel da educação na sociedade, o papel do Estado e os valores
que a escola deve transmitir para os alunos. Ademais, cabe aqui, também, propor
uma reflexão sobre a participação da família neste processo, visto que ela, a
família, é a base de todas as transformações que ocorrem na sociedade.
BIBLIOGRAFIA
BARBOSA,
Luciane Muniz Ribeiro. Estado e Educação
em Martinho Lutero: A origem do direito à Educação. São Paulo: USP, 2011
CARPEOUX, Otto
Maria. A história concisa da literatura
alemã. São Paulo: Faro Editorial, 1963
FEBVRE, Lucien.
Martinho Lutero, um destino. São
Paulo: Três Estrelas, 2012
FERRARI, M. Erasmo de Roterdã, o pedagogo humanista.
Nova Escola, São Paulo, n. 184, ago. 2005, disponível no site: http%3A%2F%2Frevistaescola.abril.com.br%2Fedicoes%2F0184%2Faberto%2Fmt_84862.shtml>,
acessado no dia: 08/12/2017
JUSVIACK,
Patrícia, WESTPHAL, Euler Renato. O
Estado Moderno e a Reforma Protestante a partir da Interpretação de Quentin
Skinner. Santa Catarina: Revista
Teológica Internacional, 2016
KNIGHT, A. E,
ANGLIN, W. História do cristianismo.
Rio de Janeiro: CPAD, 1983.
MATOS, Alderi
Souza de. A Reforma Protestante Do
Século XVI. Campinas: SPC, 2016
RAMIRO,
Marcelo. A Reforma Protestante e sua contribuição para a educação moderna. São
Paulo: UMSP, 2012, disponível no site: http://portal.metodista.br/fateo/noticias/a-reforma-protestante-e-sua-contribuicao-para-a-educacao-moderna,
acessado no dia 07/12/17
SCHNEIDER,
Cátia Regina de Oliveira. A Educação na
Idade Média. Santa Catarina: UNIASSELVI, 2007
VARELA, Simone.
Contribuições de Martinho à Educação.
Aracaju: Interfaces científicas, 2014
[1]
Durante a Idade Média o burgo era o lugar mais seguro para se viver, fora das
muralhas dos feudos. Normalmente, o burgo era protegido por guarnições
militares.
[2]
Criou-se a ideia errônea de que a razão só ganhou importância a partir do
humanismo, quando, na verdade, a razão já era considera algo de extrema
importância desde a época da escolástica.
[3] Durante
a Idade Média o pecado da usura era cometido por aqueles que enriqueciam por
meio dos juros exorbitantes.
[4] Em
suas pregações, Tetzel costumava dizer que a eficácia das indulgências poderia
conceder perdão até mesmo a quem procurasse violar a própria mãe de Cristo.
[5]
Série de medidas adotadas por Carlos Magno (742-814) no intuito de reformar a
vida cultural do povo franco.
[6] Em
latim, “O Mestre disse”. Neste caso a racionalidade é abandonada, pois a
opinião e a autoridade do mestre sobre o assunto não pode ser questionada.
[7] Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há
autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele
estabelecidas.
Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos.
Romanos 13:1,2
Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos.
Romanos 13:1,2
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
INDISCIPLINA NA SALA DE AULA: UMA ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA
INDISCIPLINA NA SALA DE
AULA: UMA ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA
RESUMO
Dos inúmeros problemas que
cerceiam a pratica educativa brasileira, aquele que mais aflige os educadores,
sem sombra de dúvidas, é a questão da indisciplina. As relações professor-aluno
muitas vezes são desencadeadoras de tensões que prejudicam os trabalhos dentro
da sala de aula, criam sentimentos negativos e prejudicam o bom desempenho dos
alunos. Levando em consideração a importância deste tema este trabalho terá
como objetivo a análise das origens e o apontamento de soluções pautadas na
psicopedagogia.
Palavras chaves:
indisciplina, aluno, escola, psicopedagogia
Dentro
do contexto escolar a disciplina é entendida como um conjunto de regras que
devem ser seguidas por professores e alunos ALMEIDA (2001, p. 06). É um
elemento necessário para o bom andamento para qualquer atividade que possua uma
finalidade, um objetivo. Sem ela, os objetivos que foram planejados não poderão
ser alcançados.
A
indisciplina é um processo onde as regras estabelecidas são quebradas, causando
uma desordem, impedindo o bom andamento do trabalho. Na sala de aula a
indisciplina é uma manifestação de “rebeldia, intransigência, desacato”, (ALMEIDA,
2001, p. 06). Tal situação gera um clima de tensão, prejudicando os trabalhos e
impedindo que o professor cumpra com aquilo que foi planejado para aquela aula.
Os
efeitos gerados pela indisciplina em sala de aula na saúde dos professores é
notório, segundo Picado (2009, p. 2), gerando mal estar e stress, com os
docente cada vez mais preocupados com as difíceis condições de trabalho e
muitas vezes temendo pela sua integridade moral e física.
A
indisciplina é um dos principais causadores de doenças e síndromes entre os
professores:
[...] a
falta de reconhecimento, a falta de respeito dos alunos, dos governantes e
sociedade em geral, e principalmente a falta de remuneração às horas usadas
para correção de provas, trabalhos, etc. geralmente subtraindo uma parte de
suas horas livres. Tudo isso pode levar o professor à insatisfação, ao
desestímulo e à falta de perspectiva de crescimento. (LIPP,
2002, p.15)
Além
dos problemas relativos ao stress, cabe destacar a síndrome do esgotamento
profissional conhecido como Síndrome de Burnout, que se manifesta em sintomas
físicos e psicológicos.
Os
alunos não estão imunes aos malefícios da indisciplina na sala de aula: a
agitação, a agressividade e a carga emocional que o aluno traz consigo de casa
são capazes de gerar um “efeito cascata”, que se propaga por toda a sala
fazendo cair por terra todo o planejamento que o professor tanto se esmerou
para elaborar.
Da
mesma forma que para o profissional da educação a indisciplina pode ser motivo
de stress, ansiedade e frustração para aqueles alunos que não conseguem
assimilar o ensinamento proposto pelo professor.
Quais
as causas da indisciplina? Quais são as suas origens? Sem a pretensão de
esgotar o assunto, procuraremos elencar alguns elementos geradores da
indisciplina na sala de aula, que tanto tem afligido profissionais e alunos e, sem
dúvidas, um dos principais motivos pelo qual o Brasil ocupa os últimos lugares
nos testes mundiais de educação[1].
É
público e notório que a imagem do professor se modificou sobremaneira ao longo
dos tempos. Estas modificações ocorridas
na imagem do professor, geradas pelo acúmulo de funções atribuídas a este
profissional, contribui para que o aluno desenvolva uma visão diferente do
profissional de educação dentro da sala de aula. (PICADO, 2009, p. 02).
Atualmente, o profissional de educação não tem o mesmo prestígio que possuía em
décadas anteriores. Outrora, ele era a autoridade máxima dentro da sala de
aula. Hoje, perdeu o posto para crianças e adolescentes que são os “reis” de
sua casa e trazem essa bagagem para a escola.
Ampliando
ainda mais a questão, podemos fazer uma reflexão sobre a visão que o aluno faz
da escola. Qual o objetivo dela? Qual a
finalidade de seu currículo? O que ele visa alcançar? Se para o aluno a escola
é um lugar de desenvolvimento de habilidades para o mercado de trabalho, para
que futuramente ele possa ter um bom salário e um bom emprego, então esse aluno
poderá a qualquer momento concluir que ele realmente não precisa passar quatro
horas de sua vida diária dentro de uma escola. Basta que ele observe três ou
quatro exemplo para confirmar a sua tese e teremos um aluno que não conseguirá
ver nenhum sentido para a escola. A indisciplina, o desinteresse, a falta de
motivação será uma realidade.
Outro
elemento gerador de indisciplina tem a ver com a escola como transmissora da
cultura da sociedade na qual está inserida:
Ao ingressarem na escola, os alunos entram em
contato com a cultura própria dessa instituição, são influenciados por ela e
podem influenciá-la também. No caso da indisciplina escolar, parece-nos que ela
se manifesta no contexto da transmissão cultural. Os alunos, muitas vezes,
resistem à cultura escolar, tentado impedir, não só o trabalho da escola, como
o trabalho da cultura em si. (GOLBA,
2009, p. 4)
Resistir, pois, à cultura transmitida e
representada pela escola pode ser encarada como um ato de indisciplina. Os
meios de comunicação podem reforçar o fenômeno ao produzir e reproduzir aquilo
que pode ser denominado de “contracultura”.
A
mudança de paradigma, a valorização de modelos que glorificam o mal
comportamento, os “foras da lei”, são também geradores de indisciplina na sala
de aula. Basta uma rápida análise em elementos da cultura pop: filmes, séries,
histórias em quadrinhos, entre outros, para constatar a criação de modelos que
personificam o fenômeno da contracultura: o aluno aplicado é sempre o “bobão”
da turma, o “nerd” esquisito que sempre se dá mal enquanto que o herói, o
popular, é sempre o mal aluno, aquele que quebra as regras e destrata o
professor, este, que invariavelmente representa o “opressor”.
Albert
Bandura observa que a aprendizagem também se dá por meio de modelagens
(BANDURA, 1977, p.22) ou seja, aquilo que a criança observa no comportamento
dos familiares, aquilo que é observado entre os colegas, aquilo que é absorvido
pela TV e outros meios de comunicação serão os modelos a serem copiados
futuramente.
Sendo
assim, o modelo que inspira um comportamento indisciplinar resultará em indisciplina
dentro da sala de aula, o que implica em um esforço conjunto de família, escola
e mídia no sentido de sanar o problema.
A
problemática da indisciplina na sala de aula exige que, na busca por soluções,
as abordagens se realizem a longo e médio prazos. Abordagens de curto prazo, sem as devidas
providências a longo prazo, resultarão em paliativos. Abordagens de longo
prazo, sem as devidas providências a curto prazo, resultarão em um estrago
ainda maior para a educação nos anos que se seguirão.
As
abordagens de longo prazo são aquelas cujos resultados não poderão ser
observados antes de um período de no mínimo vinte anos. Envolve uma mudança na
cultura da sociedade. Implica em mudar a forma como a escola é vista. A escola
fonte de bons empregos e salários deve deixar de existir e em seu lugar deve
surgir a escola formadora de seres humanos. A aquisição de conhecimento deve
assumir um papel preponderante. Família, escola, universidades, Estado, igreja,
mídia, classe artística e iniciativa privada devem trabalhar conjuntamente para
uma mudança completa da cultura nacional. A escola sozinha não muda a
sociedade, mas a sociedade como um todo muda a escola.
As
abordagens de curto prazo se tratam de medidas que podem ser postas em prática
no dia a dia da vida escolar, visando a melhoria das relações professor e
aluno.
Dentro
do contexto escolar a disciplina é entendida como um conjunto de regras que
devem ser respeitadas tanto pelos alunos como pela comunidade escolar (CLEBEA, 2001,
p. 6)
Assim
sendo, o primeiro passo para um trabalho efetivo dentro da sala de aula é a
formulação de regras claras para o ambiente escolar e outro para os trabalhos
em sala, a serem definidos pelo professor. Tais regras devem ser respeitadas
por todos, sem distinção e as sanções pelo descumprimento das regras deverão
ser de aplicação geral e proporcional à infração cometida, sempre regrado pela
moderação e o bom senso.
A participação da família neste processo é
essencial. Escola e família devem falar a mesma linguagem, pois somente assim
os alunos desenvolverão o senso de limites. Fazer com que a escola e a família
falem a mesma língua não é tarefa fácil, uma vez que a muitas destas famílias
vivem em um contexto onde a educação, a escola e a aquisição de conhecimentos
ocupam um lugar pouco privilegiado em suas vidas. Resolver esta disparidade não
é fácil e envolve abordagens de longo prazo, que já explicamos nos parágrafos
anteriores.
A
família é a base. É aonde tudo começa para a vida do aluno e definirá o
comportamento deste, dentro e fora da sala de aula:
A
harmonia familiar deve atuar como fator de proteção e segurança necessários ao
desenvolvimento confortável da criança, contribuindo para uma melhor adaptação
emocional ao meio e favorecendo um desenvolvimento sadio de condutas sociais. (CLEBEA, 2001, p. 07)
Em
seu trabalho, “A indisciplina na sala de aula: uma abordagem comportamental e
cognitiva”, o professor Paulo Picado, doutor em psicologia da educação, (2009,
p. 08) elenca uma série de técnicas que visam o controle da indisciplina dentro
da sala de aula.
A
extinção é uma técnica que pode ser usada para lidar com o comportamento
indisciplinar de pequenas proporções. Trata-se de ignorar o comportamento
indisciplinar, o que é entendido pelo aluno como uma reprovação ao mal comportamento.
A medida que o professor responde positivamente ao comportamento apropriado,
poderá reforçar este e extinguir o outro.
Representações
de papéis é outra técnica bastante eficiente, uma vez que coloca os alunos em
situações onde podem experimentar o ponto de vista do outro. Trata-se de criar
encenações onde os alunos possam representar os papeis do professor, do
estudioso e do indisciplinado. Tais encenações tem a capacidade de despertar a
consciência dos aluno para o quanto pode ser prejudicial a indisciplina em sala
de aula.
A
Reunião entre o educador e o aluno (PICADO, 2009, p.09) é umas das técnicas
mais apropriadas para lidar com o problema da indisciplina. Consiste numa
conversa franca entre professor e aluno, que pode se dar após as aulas,
distante dos outros alunos. Esta técnica possui a vantagem de não colocar o aluno
da defensiva e possibilita que ele reflita melhor em suas atitudes.
De
acordo com Clebea Lima de Almeida, especialista em psicopedagogia
institucional, (2001, p. 09), o papel do psicopedagogo não é apenas buscar
repostas para o porquê das dificuldades do aluno, mas, por meio da investigação
e das indagações, descobrir como aquele aluno aprende e o que ele pode
aprender. Assim, ele poderá fazer com que o aluno desenvolva todo o seu
potencial.
Desta
maneira, com o auxílio de conhecimentos específicos e também os oriundos de
várias outras áreas, o psicopedagogo irá investigar as causas da indisciplina
e, se necessário, poderá encaminhar o aluno via relatório, para outros
profissionais como psicólogos, neurologistas, entre outros. O trabalho do
psicopedagogo, desta maneira é um auxílio essencial na resolução do problema da
indisciplina, que tanto aflige os profissionais da educação:
O
acompanhamento psicopedagógico é importante porque que auxilia no trabalho,
atuando diretamente sobre a dificuldade escolar apresentada pela criança,
suprindo a defasagem, reforçando o conteúdo, possibilitando condições para que
novas aprendizagens ocorram, investindo na questão do não-aprender em algumas
crianças. (ALMEIDA,
2001, p.13)
CONCLUSÃO
A
indisciplina dentro da sala de aula é considerada pelos profissionais da
educação um dos maiores obstáculos a serem superados para que a atividade
educativa seja realizada de maneira apropriada. Indisciplina no contexto
escolar é entendida como um desrespeito às regras estabelecidas. Tais regras
são necessárias para que os trabalhos realizados dentro da sala de aula atinjam
os objetivos propostos durante a fase de planejamento. Os motivos que levam os
alunos ao desrespeito a essas regras são múltiplos: quebra-se as regras como
uma forma de rebeldia à cultura estabelecida, pela forma errada pela qual a
escola têm sido encarada na sociedade, a mudança de paradigmas que valorizam o
mal comportamento e desprezam a disciplina, o que leva a criação de modelos negativos,
o desprestígio da imagem do professor que lhe arrebatou a autoridade, a
inserção da família em um contexto social onde a educação não é considerada uma
prioridade, entre outros. Para superar tais dificuldades será necessário
medidas de longo e curto prazo. Um esforço conjunto de Estado, família, escola,
veículos de mídia, classe artista, igrejas, iniciativa privada e todos os
demais agentes culturais. O trabalho do psicopedagogo neste contexto é
essencial, uma vez que tal profissional detém conhecimentos específicos, sendo
capaz de diagnosticar os problemas e para além disso, entender como o aluno se
relaciona com o mundo, como fazer ele desenvolver o seu potencial. Esperamos
que este trabalho seja útil para elucidar algumas questões a respeito deste
problema e para fornecer ferramentas de auxílio para a atividade do dia a dia
na sala de aula.
BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, Clebea Lima. Indisciplina na visão psicopedagógica. Rondônia: FAP, 2001
PICADO, Paulo. A Indisciplina na sala de aula: uma
abordagem comportamental e cognitiva. Portugal: ISCE, 2009
LIPP, Marilda (Org.). O stress do professor. Campinas:
Papirus, 2002.
GOLBA, Mônica
Aparecida de Macedo. Os motivos da
indisciplina na escola: a perspectiva dos alunos. Parará: UNIVALE-PR, 2009
BANDURA,
A. Teoria da Aprendizagem social.
Psychological Review, 1977
segunda-feira, 25 de julho de 2016
O impacto do cristianismo na cultura indígena
Se existe uma verdade muito mais
do que observável na vida, é a verdade de que o mundo não é um local inerte. O
mundo observável tal qual uma massa de modelar assumindo várias formas diante
das mãos de quem nela trabalha, modifica-se em ritmo, por vezes, alucinante,
diante de irresistíveis e não raro, catastróficas forças.
Às sociedades diante destas mudanças,
não são meros expectadores, pois, através de seus trabalhos, modificam a
natureza de forma a adaptá-la às suas necessidades. Tais mudanças são
inevitáveis e, por vezes, acabam afetando outros povos, outras sociedades nos
lugares mais distantes.
Os diversos povos indígenas que
habitavam as terras onde hoje é o Brasil na época da chegada dos portugueses,
também não escaparam a essa força modificadora que a todos abraça. Junto com os
sonhos de riqueza e aventura, na bagagem destes europeus também havia o desejo
das almas, já que Portugal nesta época tinha plena convicção do seu papel de
porta voz do cristianismo.
Ao desembarcarem de suas
caravelas naqueles vinte e dois de abril do ano de mil e quinhentos, deram de
cara com uma diversidade de povos que habitavam em enormes aldeias, bem maiores
do que as existentes no dia de hoje.
Durante aproximadamente trinta e
cinco anos, a colonização destas novas terras não fizeram parte das prioridades
da coroa portuguesa. Todavia, as constantes ameaças de invasão estrangeira,
sobretudo francesas e holandesas, fizeram com que o governo português desenvolvesse
um plano de colonização.
Para concretizar tal gigantesca
missão muitos obstáculos teriam que ser superados e, o primeiro deles, seria o
controle da grande população de indígenas que vivia na região. Talvez a tarefa
fosse menos complexa se os portugueses tivessem que lidar com uma massa
homogênea de povos. Mas, a realidade que se apresentou a eles, foi a de uma
diversidade de línguas e costumes. Assim, o cristianismo significou uma solução
ao problema, uma ferramenta ideal para unificar os costumes dos povos e lhes
arrefecer o espírito guerreiro.
Para o indígena, o cristianismo
se tornou uma forma de sobrevivência, pois ficou claro para esses povos que
nada mais seria como antes. Abraçar a cultura dos estrangeiros era uma forma de
lutar nos próprios termos dos dominadores.
A identidade indígena,
inexistente até então, surgiu do contato com os portugueses. Na mente do
indígena criou-se a separação “Eu índio/Eles brancos”. O cristianismo tornou-se
a porta de entrada para o mundo branco.
As relações entre os indígenas e
os padres jesuítas encarregados da evangelização, evidentemente, não foram cem
por cento amistosas. O registro histórico nos informa que o choque cultural
muitas vezes causaram confrontos que terminavam em castigos físicos e padres
canibalizados.
O maior erro deste primeiro
contado foi justamente a imposição. Os primeiros cristãos, sem a força do
Estado, convenciam, enquanto os últimos, já com a força do Estado, impunham. E
pela força dessa imposição, sem a chance de seguir o caminho espiritual natural
do cristão que é convencido, os povos indígenas manifestaram um cristianismo
bem diferente do que pretendiam os jesuítas.
Embora, de certa forma, a
conversão do índio fosse benéfica ao interesse econômicos da coroa portuguesa
tal interesses muitas vezes se chocavam com os dos jesuítas, que não viam com
bons olhos, por exemplo, a utilização de mão de obra escrava oriunda dos povos
indígenas. Essas tensões que reverberando até os colonos, resultaram na Revolta
de Beckman, indicam que as motivações econômicas não eram as únicas,
principalmente quando se leva em consideração o papel que Portugal julgava ter
dentro dos objetivos cristãos.
O fenômeno da conversão, muito
embora possua a propriedade de fazer com que o indivíduo corrija uma trajetória
que se desviou da rota apropriada, não altera as características que distinguem
a pessoa. Saulo de Tarso não deixou de ser quem era, quando se tornou São
Paulo, apóstolo. Pedro, depois da conversão, continuou a ser o mesmo sanguíneo
Pedro com tudo o que o caracterizava como tal, só que agora, novamente na rota
que o Criador originalmente havia programado para todo o gênero humano, desde os
primeiros momentos da criação.
O indígena que é restaurado na
direção do alvo original, não deixa de ser índio, pois ainda mantem todas as
características que o definem como tal. Ele fala como índio, sente como índio,
pensa como índio. Sua história, suas lembranças, tudo, enfim, continua a ser o
que sempre foi e assim será até o último bater de seu coração. Um índio cristão, não é menos índio do que
qualquer outro.
Os primeiros missionários
jesuítas eram meios imperfeitos de transmissão de uma mensagem perfeita. A
cacofonia gerou violência e abusos. Todavia, pelos méritos da própria mensagem
que a tudo renova e aperfeiçoa, o que era violência e abuso, hoje é vida e
esperança, que ajudou a preservar a cultura dos povos na medida em que se
tentava a comunicação nos seus próprios idiomas e costumes. Muitos destes
costumes, aliás, ficaram registrados em milhares de documentos graças às
anotações dos primeiros missionários.
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