sexta-feira, 17 de novembro de 2017

INDISCIPLINA NA SALA DE AULA: UMA ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA

INDISCIPLINA NA SALA DE AULA: UMA ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA

RESUMO
Dos inúmeros problemas que cerceiam a pratica educativa brasileira, aquele que mais aflige os educadores, sem sombra de dúvidas, é a questão da indisciplina. As relações professor-aluno muitas vezes são desencadeadoras de tensões que prejudicam os trabalhos dentro da sala de aula, criam sentimentos negativos e prejudicam o bom desempenho dos alunos. Levando em consideração a importância deste tema este trabalho terá como objetivo a análise das origens e o apontamento de soluções pautadas na psicopedagogia.

Palavras chaves: indisciplina, aluno, escola, psicopedagogia


Dentro do contexto escolar a disciplina é entendida como um conjunto de regras que devem ser seguidas por professores e alunos ALMEIDA (2001, p. 06). É um elemento necessário para o bom andamento para qualquer atividade que possua uma finalidade, um objetivo. Sem ela, os objetivos que foram planejados não poderão ser alcançados.
A indisciplina é um processo onde as regras estabelecidas são quebradas, causando uma desordem, impedindo o bom andamento do trabalho. Na sala de aula a indisciplina é uma manifestação de “rebeldia, intransigência, desacato”, (ALMEIDA, 2001, p. 06). Tal situação gera um clima de tensão, prejudicando os trabalhos e impedindo que o professor cumpra com aquilo que foi planejado para aquela aula.
Os efeitos gerados pela indisciplina em sala de aula na saúde dos professores é notório, segundo Picado (2009, p. 2), gerando mal estar e stress, com os docente cada vez mais preocupados com as difíceis condições de trabalho e muitas vezes temendo pela sua integridade moral e física.



A indisciplina é um dos principais causadores de doenças e síndromes entre os professores:

[...] a falta de reconhecimento, a falta de respeito dos alunos, dos governantes e sociedade em geral, e principalmente a falta de remuneração às horas usadas para correção de provas, trabalhos, etc. geralmente subtraindo uma parte de suas horas livres. Tudo isso pode levar o professor à insatisfação, ao desestímulo e à falta de perspectiva de crescimento.   (LIPP, 2002, p.15)

Além dos problemas relativos ao stress, cabe destacar a síndrome do esgotamento profissional conhecido como Síndrome de Burnout, que se manifesta em sintomas físicos e psicológicos.
Os alunos não estão imunes aos malefícios da indisciplina na sala de aula: a agitação, a agressividade e a carga emocional que o aluno traz consigo de casa são capazes de gerar um “efeito cascata”, que se propaga por toda a sala fazendo cair por terra todo o planejamento que o professor tanto se esmerou para elaborar.
Da mesma forma que para o profissional da educação a indisciplina pode ser motivo de stress, ansiedade e frustração para aqueles alunos que não conseguem assimilar o ensinamento proposto pelo professor.
Quais as causas da indisciplina? Quais são as suas origens? Sem a pretensão de esgotar o assunto, procuraremos elencar alguns elementos geradores da indisciplina na sala de aula, que tanto tem afligido profissionais e alunos e, sem dúvidas, um dos principais motivos pelo qual o Brasil ocupa os últimos lugares nos testes mundiais de educação[1].
É público e notório que a imagem do professor se modificou sobremaneira ao longo dos tempos.  Estas modificações ocorridas na imagem do professor, geradas pelo acúmulo de funções atribuídas a este profissional, contribui para que o aluno desenvolva uma visão diferente do profissional de educação dentro da sala de aula. (PICADO, 2009, p. 02). Atualmente, o profissional de educação não tem o mesmo prestígio que possuía em décadas anteriores. Outrora, ele era a autoridade máxima dentro da sala de aula. Hoje, perdeu o posto para crianças e adolescentes que são os “reis” de sua casa e trazem essa bagagem para a escola.
Ampliando ainda mais a questão, podemos fazer uma reflexão sobre a visão que o aluno faz da escola.  Qual o objetivo dela? Qual a finalidade de seu currículo? O que ele visa alcançar? Se para o aluno a escola é um lugar de desenvolvimento de habilidades para o mercado de trabalho, para que futuramente ele possa ter um bom salário e um bom emprego, então esse aluno poderá a qualquer momento concluir que ele realmente não precisa passar quatro horas de sua vida diária dentro de uma escola. Basta que ele observe três ou quatro exemplo para confirmar a sua tese e teremos um aluno que não conseguirá ver nenhum sentido para a escola. A indisciplina, o desinteresse, a falta de motivação será uma realidade.
Outro elemento gerador de indisciplina tem a ver com a escola como transmissora da cultura da sociedade na qual está inserida:
Ao ingressarem na escola, os alunos entram em contato com a cultura própria dessa instituição, são influenciados por ela e podem influenciá-la também. No caso da indisciplina escolar, parece-nos que ela se manifesta no contexto da transmissão cultural. Os alunos, muitas vezes, resistem à cultura escolar, tentado impedir, não só o trabalho da escola, como o trabalho da cultura em si.         (GOLBA, 2009, p. 4)

 Resistir, pois, à cultura transmitida e representada pela escola pode ser encarada como um ato de indisciplina. Os meios de comunicação podem reforçar o fenômeno ao produzir e reproduzir aquilo que pode ser denominado de “contracultura”.
A mudança de paradigma, a valorização de modelos que glorificam o mal comportamento, os “foras da lei”, são também geradores de indisciplina na sala de aula. Basta uma rápida análise em elementos da cultura pop: filmes, séries, histórias em quadrinhos, entre outros, para constatar a criação de modelos que personificam o fenômeno da contracultura: o aluno aplicado é sempre o “bobão” da turma, o “nerd” esquisito que sempre se dá mal enquanto que o herói, o popular, é sempre o mal aluno, aquele que quebra as regras e destrata o professor, este, que invariavelmente representa o “opressor”.
Albert Bandura observa que a aprendizagem também se dá por meio de modelagens (BANDURA, 1977, p.22) ou seja, aquilo que a criança observa no comportamento dos familiares, aquilo que é observado entre os colegas, aquilo que é absorvido pela TV e outros meios de comunicação serão os modelos a serem copiados futuramente.
Sendo assim, o modelo que inspira um comportamento indisciplinar resultará em indisciplina dentro da sala de aula, o que implica em um esforço conjunto de família, escola e mídia no sentido de sanar o problema.
A problemática da indisciplina na sala de aula exige que, na busca por soluções, as abordagens se realizem a longo e médio prazos.  Abordagens de curto prazo, sem as devidas providências a longo prazo, resultarão em paliativos. Abordagens de longo prazo, sem as devidas providências a curto prazo, resultarão em um estrago ainda maior para a educação nos anos que se seguirão.  
As abordagens de longo prazo são aquelas cujos resultados não poderão ser observados antes de um período de no mínimo vinte anos. Envolve uma mudança na cultura da sociedade. Implica em mudar a forma como a escola é vista. A escola fonte de bons empregos e salários deve deixar de existir e em seu lugar deve surgir a escola formadora de seres humanos. A aquisição de conhecimento deve assumir um papel preponderante. Família, escola, universidades, Estado, igreja, mídia, classe artística e iniciativa privada devem trabalhar conjuntamente para uma mudança completa da cultura nacional. A escola sozinha não muda a sociedade, mas a sociedade como um todo muda a escola.
As abordagens de curto prazo se tratam de medidas que podem ser postas em prática no dia a dia da vida escolar, visando a melhoria das relações professor e aluno.
Dentro do contexto escolar a disciplina é entendida como um conjunto de regras que devem ser respeitadas tanto pelos alunos como pela comunidade escolar (CLEBEA, 2001, p. 6)
Assim sendo, o primeiro passo para um trabalho efetivo dentro da sala de aula é a formulação de regras claras para o ambiente escolar e outro para os trabalhos em sala, a serem definidos pelo professor. Tais regras devem ser respeitadas por todos, sem distinção e as sanções pelo descumprimento das regras deverão ser de aplicação geral e proporcional à infração cometida, sempre regrado pela moderação e o bom senso.
 A participação da família neste processo é essencial. Escola e família devem falar a mesma linguagem, pois somente assim os alunos desenvolverão o senso de limites. Fazer com que a escola e a família falem a mesma língua não é tarefa fácil, uma vez que a muitas destas famílias vivem em um contexto onde a educação, a escola e a aquisição de conhecimentos ocupam um lugar pouco privilegiado em suas vidas. Resolver esta disparidade não é fácil e envolve abordagens de longo prazo, que já explicamos nos parágrafos anteriores.
A família é a base. É aonde tudo começa para a vida do aluno e definirá o comportamento deste, dentro e fora da sala de aula:
A harmonia familiar deve atuar como fator de proteção e segurança necessários ao desenvolvimento confortável da criança, contribuindo para uma melhor adaptação emocional ao meio e favorecendo um desenvolvimento sadio de condutas sociais. (CLEBEA, 2001, p. 07)

Em seu trabalho, “A indisciplina na sala de aula: uma abordagem comportamental e cognitiva”, o professor Paulo Picado, doutor em psicologia da educação, (2009, p. 08) elenca uma série de técnicas que visam o controle da indisciplina dentro da sala de aula.
A extinção é uma técnica que pode ser usada para lidar com o comportamento indisciplinar de pequenas proporções. Trata-se de ignorar o comportamento indisciplinar, o que é entendido pelo aluno como uma reprovação ao mal comportamento. A medida que o professor responde positivamente ao comportamento apropriado, poderá reforçar este e extinguir o outro.
Representações de papéis é outra técnica bastante eficiente, uma vez que coloca os alunos em situações onde podem experimentar o ponto de vista do outro. Trata-se de criar encenações onde os alunos possam representar os papeis do professor, do estudioso e do indisciplinado. Tais encenações tem a capacidade de despertar a consciência dos aluno para o quanto pode ser prejudicial a indisciplina em sala de aula.

A Reunião entre o educador e o aluno (PICADO, 2009, p.09) é umas das técnicas mais apropriadas para lidar com o problema da indisciplina. Consiste numa conversa franca entre professor e aluno, que pode se dar após as aulas, distante dos outros alunos. Esta técnica possui a vantagem de não colocar o aluno da defensiva e possibilita que ele reflita melhor em suas atitudes.
De acordo com Clebea Lima de Almeida, especialista em psicopedagogia institucional, (2001, p. 09), o papel do psicopedagogo não é apenas buscar repostas para o porquê das dificuldades do aluno, mas, por meio da investigação e das indagações, descobrir como aquele aluno aprende e o que ele pode aprender. Assim, ele poderá fazer com que o aluno desenvolva todo o seu potencial.
Desta maneira, com o auxílio de conhecimentos específicos e também os oriundos de várias outras áreas, o psicopedagogo irá investigar as causas da indisciplina e, se necessário, poderá encaminhar o aluno via relatório, para outros profissionais como psicólogos, neurologistas, entre outros. O trabalho do psicopedagogo, desta maneira é um auxílio essencial na resolução do problema da indisciplina, que tanto aflige os profissionais da educação:
O acompanhamento psicopedagógico é importante porque que auxilia no trabalho, atuando diretamente sobre a dificuldade escolar apresentada pela criança, suprindo a defasagem, reforçando o conteúdo, possibilitando condições para que novas aprendizagens ocorram, investindo na questão do não-aprender em algumas crianças. (ALMEIDA, 2001, p.13)










CONCLUSÃO
A indisciplina dentro da sala de aula é considerada pelos profissionais da educação um dos maiores obstáculos a serem superados para que a atividade educativa seja realizada de maneira apropriada. Indisciplina no contexto escolar é entendida como um desrespeito às regras estabelecidas. Tais regras são necessárias para que os trabalhos realizados dentro da sala de aula atinjam os objetivos propostos durante a fase de planejamento. Os motivos que levam os alunos ao desrespeito a essas regras são múltiplos: quebra-se as regras como uma forma de rebeldia à cultura estabelecida, pela forma errada pela qual a escola têm sido encarada na sociedade, a mudança de paradigmas que valorizam o mal comportamento e desprezam a disciplina, o que leva a criação de modelos negativos, o desprestígio da imagem do professor que lhe arrebatou a autoridade, a inserção da família em um contexto social onde a educação não é considerada uma prioridade, entre outros. Para superar tais dificuldades será necessário medidas de longo e curto prazo. Um esforço conjunto de Estado, família, escola, veículos de mídia, classe artista, igrejas, iniciativa privada e todos os demais agentes culturais. O trabalho do psicopedagogo neste contexto é essencial, uma vez que tal profissional detém conhecimentos específicos, sendo capaz de diagnosticar os problemas e para além disso, entender como o aluno se relaciona com o mundo, como fazer ele desenvolver o seu potencial. Esperamos que este trabalho seja útil para elucidar algumas questões a respeito deste problema e para fornecer ferramentas de auxílio para a atividade do dia a dia na sala de aula.









BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, Clebea Lima. Indisciplina na visão psicopedagógica.  Rondônia: FAP, 2001
PICADO, Paulo. A Indisciplina na sala de aula: uma abordagem comportamental e cognitiva. Portugal: ISCE, 2009
LIPP, Marilda (Org.). O stress do professor. Campinas: Papirus, 2002.
GOLBA, Mônica Aparecida de Macedo. Os motivos da indisciplina na escola: a perspectiva dos alunos. Parará: UNIVALE-PR, 2009

BANDURA, A. Teoria da Aprendizagem social. Psychological Review, 1977




[1] http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/brasil-mantem-ultimas-colocacoes-no-pisa/

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O impacto do cristianismo na cultura indígena

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Se existe uma verdade muito mais do que observável na vida, é a verdade de que o mundo não é um local inerte. O mundo observável tal qual uma massa de modelar assumindo várias formas diante das mãos de quem nela trabalha, modifica-se em ritmo, por vezes, alucinante, diante de irresistíveis e não raro, catastróficas forças.

Às sociedades diante destas mudanças, não são meros expectadores, pois, através de seus trabalhos, modificam a natureza de forma a adaptá-la às suas necessidades. Tais mudanças são inevitáveis e, por vezes, acabam afetando outros povos, outras sociedades nos lugares mais distantes.

Os diversos povos indígenas que habitavam as terras onde hoje é o Brasil na época da chegada dos portugueses, também não escaparam a essa força modificadora que a todos abraça. Junto com os sonhos de riqueza e aventura, na bagagem destes europeus também havia o desejo das almas, já que Portugal nesta época tinha plena convicção do seu papel de porta voz do cristianismo.

Ao desembarcarem de suas caravelas naqueles vinte e dois de abril do ano de mil e quinhentos, deram de cara com uma diversidade de povos que habitavam em enormes aldeias, bem maiores do que as existentes no dia de hoje.
Durante aproximadamente trinta e cinco anos, a colonização destas novas terras não fizeram parte das prioridades da coroa portuguesa. Todavia, as constantes ameaças de invasão estrangeira, sobretudo francesas e holandesas, fizeram com que o governo português desenvolvesse um plano de colonização.

Para concretizar tal gigantesca missão muitos obstáculos teriam que ser superados e, o primeiro deles, seria o controle da grande população de indígenas que vivia na região. Talvez a tarefa fosse menos complexa se os portugueses tivessem que lidar com uma massa homogênea de povos. Mas, a realidade que se apresentou a eles, foi a de uma diversidade de línguas e costumes. Assim, o cristianismo significou uma solução ao problema, uma ferramenta ideal para unificar os costumes dos povos e lhes arrefecer o espírito guerreiro.

Para o indígena, o cristianismo se tornou uma forma de sobrevivência, pois ficou claro para esses povos que nada mais seria como antes. Abraçar a cultura dos estrangeiros era uma forma de lutar nos próprios termos dos dominadores. 

A identidade indígena, inexistente até então, surgiu do contato com os portugueses. Na mente do indígena criou-se a separação “Eu índio/Eles brancos”. O cristianismo tornou-se a porta de entrada para o mundo branco.

As relações entre os indígenas e os padres jesuítas encarregados da evangelização, evidentemente, não foram cem por cento amistosas. O registro histórico nos informa que o choque cultural muitas vezes causaram confrontos que terminavam em castigos físicos e padres canibalizados.

O maior erro deste primeiro contado foi justamente a imposição. Os primeiros cristãos, sem a força do Estado, convenciam, enquanto os últimos, já com a força do Estado, impunham. E pela força dessa imposição, sem a chance de seguir o caminho espiritual natural do cristão que é convencido, os povos indígenas manifestaram um cristianismo bem diferente do que pretendiam os jesuítas.

Embora, de certa forma, a conversão do índio fosse benéfica ao interesse econômicos da coroa portuguesa tal interesses muitas vezes se chocavam com os dos jesuítas, que não viam com bons olhos, por exemplo, a utilização de mão de obra escrava oriunda dos povos indígenas. Essas tensões que reverberando até os colonos, resultaram na Revolta de Beckman, indicam que as motivações econômicas não eram as únicas, principalmente quando se leva em consideração o papel que Portugal julgava ter dentro dos objetivos cristãos.

O fenômeno da conversão, muito embora possua a propriedade de fazer com que o indivíduo corrija uma trajetória que se desviou da rota apropriada, não altera as características que distinguem a pessoa. Saulo de Tarso não deixou de ser quem era, quando se tornou São Paulo, apóstolo. Pedro, depois da conversão, continuou a ser o mesmo sanguíneo Pedro com tudo o que o caracterizava como tal, só que agora, novamente na rota que o Criador originalmente havia programado para todo o gênero humano, desde os primeiros momentos da criação.

O indígena que é restaurado na direção do alvo original, não deixa de ser índio, pois ainda mantem todas as características que o definem como tal. Ele fala como índio, sente como índio, pensa como índio. Sua história, suas lembranças, tudo, enfim, continua a ser o que sempre foi e assim será até o último bater de seu coração.  Um índio cristão, não é menos índio do que qualquer outro.

Os primeiros missionários jesuítas eram meios imperfeitos de transmissão de uma mensagem perfeita. A cacofonia gerou violência e abusos. Todavia, pelos méritos da própria mensagem que a tudo renova e aperfeiçoa, o que era violência e abuso, hoje é vida e esperança, que ajudou a preservar a cultura dos povos na medida em que se tentava a comunicação nos seus próprios idiomas e costumes. Muitos destes costumes, aliás, ficaram registrados em milhares de documentos graças às anotações dos primeiros missionários.

O mundo está em constante modificação. As sociedades e suas culturas também. Na contramão da evolução, estão aqueles que lutam para que os povos indígenas vivam da mesma forma como viviam seus antepassados do século XVI. O indígena tem direito a desfrutar de todos os benefícios que a vida moderna pode trazer. Sua cultura não pode morrer, mas se modifica. É uma lei natural da existência humana.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Deus: A expressão máxima do amor


A princípio tentarei definir esta palavra que tantas emoções tem sido capaz de nos despertar sem que, contudo, compreendamos completamente o real sentido daquilo que é proferido pelos lábios.

Chegar a uma resposta objetiva, racional e conclusiva sobre o que seria o amor não é tarefa tão fácil quanto certa porcentagem da população mundial, julgo, poderia supor.

 A filosofia desde seus primeiros esforços em entender a realidade, tem se dedicado à tarefa de compreender o fenômeno e suas múltiplas formas.  Foi assim que os antigos gregos definiram quatro palavras para classificar os tipos de amor, dentre as quais, o termo ágape na filosofia neoplatonista cristã, foi associado ao amor divino, pois o termo define um tipo de amor imparcial, unilateral e transcendente. 

Tanto no cristianismo, como no judaísmo, e em uma versão mais antiga da mitologia grega, o amor está associado ao Criador. O amor incondicional, infinito, unilateral e transcendente, muito mais do que uma característica de Deus, é o nome pelo qual poderíamos chama-lo.  O maior ser que pode ser concebido deve ser a expressão máxima do amor. Ele é tão perfeito, tão completo, que todos os teus atos são expressões do seu amor pela sua criação.  O homem, obra prima de toda a criação, não foi criado com outro objetivo senão por amor ao próprio homem.

Este, penso, é a maior dentre as inúmeras diferenças entre a concepção de Deus apresentado pelo cristianismo e pelo islamismo. Enquanto Jesus ensina que o pai tem um amor incondicional pela humanidade, Alá deixa claro no Alcorão que não ama o pecador, o que dificulta a nossa visão de Alá como o “maior ser que pode ser concebido”.

Diferentemente do que acontece na concepção islâmica de Deus, dentro da visão judaico-cristã, Ele é a definição perfeita do amor, o ágape grego que não hesita em se fazer carne e experimentar o sofrimento por amor aos pecadores. O Deus bíblico, ao contrário de Alá, demonstra ser capaz de manifestar um amor incondicional pela humanidade, provando ser capaz de preencher os requisitos necessários para ser o “maior ser que pode ser concebido”.


Concluindo-se que o Deus bíblico é o único capaz de atender as exigências de um ser que é o “maior que pode ser concebido”, talvez fosse, agora, apropriada uma reflexão de como essa ideia de Deus se desenvolveu. Apropriada, explico, porque existe a necessidade de investigação um pouco mais profunda sobre como as múltiplas concepções da divindade, desde que a humanidade veio à existência.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Marco Feliciano x Felipe Neto



Se existe um mal que se alastra como uma praga na maneira de pensar do brasileiro é aquele que nos obriga a criticar tudo e conhecer quase nada. Este mal se tornou evidente no recente debate entre Marco Feliciano e Felipe Neto.

Não vou me concentrar no aspecto político do debate, uma vez que este foi muito bem tratado pelo senhor Feliciano, mas sim, no teológico, uma vez que foi precisamente ali, onde se tornaram mais gritantes os efeitos nocivos do mal. Curiosamente, Marco Feliciano se mostrou um melhor político, do que teólogo, apesar de ser pastor há muito mais tempo do que é político.

Em primeiro lugar, cabe perguntar se beber da fonte de bom grado e ao mesmo tempo a considerar contaminada seria uma atitude a ser esperada de qualquer um que analise os fatos de maneira apropriada, ou ter afeição por um médico que lhe curou de uma doença grave e ao mesmo tempo o considerar um incompetente, ou ainda, procurar o alívio para a dor na substância que lhe causa agonia mortal.

É exatamente este o erro que fica evidente na fala do jovem Felipe Neto, ao aceitar o Jesus Cristo pregado por Paulo, ao mesmo tempo em que recusa a aceitar o que Paulo fala em nome de Cristo. 
Naturalmente, Chesterton, num de seus arroubos de genialidade, acertou em cheio quando escreveu: “Fanático, é o homem que acha que o outro está errado em tudo, por estar errado em alguma coisa”.  Esta ideia não faria menos sentido se fosse colocada da seguinte maneira: “fanático, é o homem que acha que o outro está certo em tudo, por estar certo em alguma coisa”. Todavia, faltou ao jovem Felipe Neto explicar o porquê Paulo estaria certo sobre tudo, menos sobre um determinado assunto.

Por diversas vezes, o jovem Neto se mostrou melhor teórico, do que teólogo, ao interpretar o texto de Romanos sem contextualiza-lo com o que registra o livro de Apocalipse, pois se tivesse assim procedido, a conclusão de universalidade e atemporalidade teria sido tão clara como o céu, ao sol do meio dia.

Outra tese felipiana seria referente ao termo grego (e não hebraico) “malakoi”, que não encontra respaldo entre os maiores especialistas em textos bíblicos, como Walter Bauer, famoso teólogo e lexicólogo do Novo testamento, segundo o qual “malakoi” se refere ao comportamento homossexual passivo e arsenokoitai”., traduzido como “sodomita”, se refere ao comportamento homossexual ativo.

Obviamente, quando se está disposto a criticar ao invés de aprender, ou mesmo se esforçar para entender corretamente um assunto, as portas da racionalidade se fecham de tal maneira, que o que sobra é apenas um show de mal entendidos e complexos de pombo enxadrista.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O maior que pode ser concebido

O teísta que coleciona um determinado número de evidências a favor da existência de Deus e as utiliza como prova para a existência do Criador, está tão equivocado quanto o ateísta que também o faz colecionando evidências contra a existência de Deus.  Uma prova requer um teste.  Por mais evidências que se colecionem sobre a evolução das espécies, a teoria da evolução nunca será uma “lei da evolução” até que um teste possibilite que isto aconteça, constituindo uma prova.

Depois de desfazermos a confusão entre evidência e prova, é necessário, agora, sabermos que tipo de evidências devemos procurar.  Se seguirmos as pistas erradas, fatalmente seremos conduzidos a um lugar diferente de onde deveríamos estar.

O primeiro passo para saber quais evidências procurar é saber o que estamos procurando.  Sendo assim, como se define Deus?

Tentaremos assim: Deus é o maior ser que pode ser concebido.

Em torno desta simples frase, umas dezenas de pensamentos podem ser construídas.

Para começar, o maior ser que pode ser concebido deve, obviamente, ser maior do que tudo o que existe. Ele não pode estar limitado pelo espaço tempo, portanto não pode ser material. O maior ser que pode ser concebido deve ser, também, maior do que todas as forças existentes no universo, acima de qualquer intelecto, ilimitado, atemporal.

Ele não pode ser comparado a nenhum deus da mitologia grega, pois todos eles tiveram um início no tempo sendo, por isso, limitados por ele: Zeus era filho do titã Cronos. Afrodite nasceu depois que Cronos decepou o pênis do próprio pai, Urano, e jogou-o no mar. Há de se perceber com os deuses da mitologia grega eram limitados no tempo e, em muitos aspectos, o eram também fisicamente.  Certamente, nenhuma divindade grega possui os atributos para ser “o maior ser que pode ser concebido”. Somem-se a eles as divindades egípcias e nórdicas que possuem as mesmas características e fica fácil concluir que nenhum dos deuses de religiões politeístas podem se enquadrar na definição de Deus que estamos trabalhando.

Ao chegarmos a conclusão de que todos os deuses politeístas não podem ser  o “maior ser que pode ser concebido”, resta-nos atentar para as três grandes religiões monoteístas da atualidade: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.


Em sua vida pública Jesus testificou que a mensagem da qual ele era portador e as obras que fazia eram oriundas do mesmo Deus dos judeus, “O Deus de Abraão de Isaque e de Jacó”. Nos Evangelhos que chegaram até nós, estão registradas as palavras pronunciadas pelo Cristo, aonde em diversas oportunidades são apresentados os principais atributos que o maior ser que pode ser concebido deve ter: imaterialidade, atemporalidade, poder ilimitado, entre outros. Os muçulmanos ensinam que, o Deus Alá anunciado pelo profeta Maomé, é o mesmo Deus sobre o qual Jesus falou. Para verificar tal afirmativa é necessário um estudo mais aprofundado sobre um atributo necessário ao maior ser que pode ser concebido: o amor.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Evidências

Um dos principais argumentos ateístas contra a existência de Deus, digo “principais” não no sentido de “melhor”, mas antes, o de mais usado em debates, comentários e publicações diversas, seria aquele que aponta para a falta de evidências para Deus.

Para melhor compreender a discussão, talvez seja apropriada uma breve explanação do que se entende como “evidência”.  Uma evidência não é uma prova, mas sim uma pista de que algo que pode ou não ser verdadeiro.  Imagine o grande detetive fictício Sherlock Holmes, personagem criado por Arthur Conan Doyle, buscando evidências sobre um assassinato: um charuto encontrado no lugar do crime, pegadas deixadas no chão, um pedaço de tecido, etc. Tudo isso são evidências que podem levar Holmes ao verdadeiro assassino, mas não são provas.  Para conseguir uma prova precisamos seguir o caminho apontado pelas evidências. Ao final do caminho é que está a resposta. Se a resposta é falsa ou verdadeira, aplicaremos um teste para nos revelar. Se bem sucedido no teste, temos uma prova. Obviamente, é mais fácil escrever sobre isso, do que fazer.

Por definição, quando um ateu diz que “não há evidências para a existência de Deus”, o que ele esta dizendo na verdade, é que não há pistas sobre a existência de Deus.
 
Quando o ateu diz que não há provas sobre a existência de Deus o que ele está na verdade dizendo é que ele seguiu as pistas e chegou a uma resposta que, mediante a um teste, se provou verdadeira.  Rematando, é tolice levantar uma prova sem averiguar as evidências.  Pense o quanto ridículo seria, se o grande Sherlock Holmes, ao tentar provar a autoria de um crime não, apresentasse uma única evidência do fato.  Com certeza seus livros não teriam vendido tanto!

Imagine também o detetive que na incapacidade de levantar evidência, conclua a não existência do crime. “Sem evidências, não há crime”, poderia alguém dizer. Errado. Não se pode chegar um destino se não houver um caminho a ser percorrido. Não se pode chegar a uma resposta se não houver indicações suficientes que nos conduzam até elas. Sendo assim, a falta de evidências não pode ser usada como prova e nem como evidência. A grande verdade é que falta de evidências nada indica, nada revela, nada responde. Não leva a lugar algum. Ex nihilo nihil fit.


O ateu que usa a falta de evidência como prova da não existência de Deus, comete o mesmo erro do detetive que conclui que não existe crime porque não achou as evidências do mesmo. Ambos pegam o nada para dar resposta de alguma coisa. Não deve ser levada a sério, pessoa que tal absurdo afirma. Uma atitude muito mais inteligente neste caso seria se negar a dar opinião.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Educação Física

DARIDO, Suraya Cristina. Diferentes Concepções Sobre o Papel da Educação Física na Escola. São Paulo: UNIVESP, 2012


Suraya Cristina Darido é formada em Física pela Universidade de São Paulo e é doutora em Psicologia Escolar e desenvolvimento humano, também pela Universidade de São Paulo. É  coordenadora do Laboratório de estudos e trabalhos pedagógicos em Educação Física (LETPEF).
Em seu artigo intitulado Diferentes Concepções Sobre o Papel da Educação Física na Escola, a autora inicia se posicionando criticamente a respeito da forma como a Educação Física é vista na escola: como recompensa ou castigo para os alunos que demostram um determinado comportamento em outras disciplinas, o que, segundo a autora, tolhe a função educadora da atividade física na escola.
Esta visão errada sobre a Educação Física advém de uma concepção equivocada, que coloca a atividade intelectual à parte da atividade física, como se o ser humano fosse composto por “partes” diferentes, quando na verdade, a Educação Física caminha junto com as demais disciplinas na formação integral do individuo.
Ainda sobre a visão que é dispensada à disciplina de Educação Física nas escolas, a autora explica que a abordagem construtivista, com forte influência em Jean Piaget, é responsável por colocar a atividade física como uma auxiliadora para que os alunos possam ter um melhor desempenho nas outras matérias escolares. A despeito dos vários benefícios da abordagem construtivista, a autora coloca que ela reduz a importância da Educação Física, a colocando como uma ferramenta para melhorar o desempenho dos alunos nas disciplinas consideradas “mais importantes”.
É evidente que os jogos e brincadeiras ensinam. E, se ensinam, os jogos e brincadeiras praticados durante as aulas de Educação Física possuem um papel fundamental. Contudo, o que o aluno aprende com a atividade física não é algo “separado”, ou uma ferramenta para melhorar a atividade intelectual, mas sim, uma parte integrante do mesmo. Entender isso é importante para que as aulas de Educação físicas sejam corretamente planejadas, não incidindo do campo da mera recreação.
 A Psicomotricidade por oferecer uma formação mais integral, é uma abordagem mais articulada, segundo a autora. O desenvolvimento funcional e emocional do indivíduo está entre os principais benefícios do trabalho psicomotor. Percebe-se que esta abordagem possui diversas aplicações na área da educação e exige do professor de Educação Física uma posição mais pedagógica.
Além das contribuições relacionadas à formação intelectual e afetiva do indivíduo, existe na prática da Educação Física, obviamente, os benefícios em relação à saúde.  Entretanto, a autora problematiza o conceito de saúde classificando-o como “estreito” e levanta a questão das desigualdades sociais.
Naturalmente, uma maior qualidade de vida e um padrão mais elevado de saúde estão relacionados a uma melhor condição socioeconômica. Por isso, a autora conclui que é necessário repensar o entendimento de saúde, para que os menos privilegiados possam desfrutar dos benefícios que a Educação Física pode oferecer.